Varanasi, Índia (AE-AP) - Às margens do rio sagrado da Índia, uma produtora de filmes está tentando capturar as dores e os problemas de ser uma viúva nos anos 30. O projeto que tem recebido acusações iradas de que o filme insultaria da tradição hindu.
Mas, a apenas poucos metros do set de filmagem está um real e escuro abrigo para viúvas, onde a realidade é muito mais comovente do que qualquer coisa que irá aparecer no filme "água" ("Water"), da produtora Deepa Mehta.
A vida parece ter paralisado na turva luz, onde oito mulheres sentam-se indiferentes, geralmente olhando inexpressivamente para as paredes descascadas. Num canto do quarto está um pequeno santuário hindu, onde elas recitam suas preces diárias, buscando a redenção para sua dor.
Ativistas de direita dizem que irão impedir as filmagens, mesmo que a produtora e diretora canadense-indiana tenha conseguido aprovação do governo do primeiro-ministro Atal Bihari Vajpayee, após fazer diversas mudanças no roteiro.
Ashok Singhal, líder do Conselho Mundial Hindu, disse que o filme "é um tapa da conspiração dos devotos da cultura ocidental para manchar a imagem da viuvez na Índia".
Mas alguns assistentes sociais dizem que o compromisso das viúvas representa a pior forma de discriminação contra mulheres na Índia, que é profundamente ligada a tradições antigas e inabaláveis. Famílias supersticiosas dizem que viúvas trazem má sorte e as culpam pela morte de seus maridos.
O hindus olham com desdém a possibilidade de outro casamento para as mulheres, embora não haja barreiras sociais para que os homens façam o mesmo.
Como muitas viúvas, Vibha foi ignorada e abandonada pelos parentes de seu marido quando ele foi morto há dois anos num acidente de trânsito. Vibha, que usa apenas um nome, deixou de ser parte de sua própria família quando se casou.
Aos 40 anos e com dois filhos, ela não tem aonde ir. Ela foi para Varanasi, uma antiga cidade sagrada, onde encontrou refúgio junto a outras viúvas no porão da Pensão Ganapathi próximo ao rio Ganges. "Assim que me tornei uma viúva, ninguém mais se importou comigo em casa", disse ela.
Em Ganapathi, carne, cebola e alho são proibidos, devido à crença de que esses alimentos criam calor e estimulam o desejo sexual. Os cabelos das viúvas são mantidos bem aparados e suas cabeças são cobertas em público. Elas dividem um único quarto e um surrado tapete, onde dormem. Um sari branco e sujo, sua única troca de roupa, está pendurado no varal do lado de fora. Não há eletricidade nem água encanada.
O proprietário da pensão providencia arroz seco e farinha para duas refeições, mas isso é um ato de caridade. Os dois pisos acima são ocupados por turistas ou peregrinos que vêm para lavar seus pecados nas águas sagradas do Ganges.
A maioria das mulheres está na faixa dos 60 ou 70 anos. Algumas fazem serviços domésticos para suplementar a magra alimentação. Outras mendigam nas passagens para o rio, nos degraus que levam ao rio onde os devotos hindus demonstram sua devoção.
Anos atrás, elas preencheram formulários para receber uma pensão do governo de cerca de 400 rupias por mês, menos de US$ 10. Mas o dinheiro nunca chegou e elas estão convencidas de que ele foi roubado por burocratas corruptos.
"Se as viúvas estão realmente passando por experiências dolorosas aqui, por que as pessoas estão amaldiçoando o filme de Deepa Mehta?", pergunta Amitabh Bhattacharya, jornalista da cidade.
Antes que a primeira cena do filme de Mehta fosse rodada, uma aglomeração de cerca de 500 manifestantes saqueou o set de filmagem no dia 30 de janeiro. A equipe de filmagens abandonou os trabalhos em 7 de fevereiro, depois de um protestante tentar suicídio. Temendo a violência de nacionalistas hindus, que consideram o filme ofensivo, o governo estadual pediu que a equipe deixasse Varanas.
Na terça-feira, Mehta disse a repórteres em Nova Délhi que poderia escolher outra locação no país no prazo de um dia ou dois. "Eu sou uma vítima. O roteiro foi aprovado pelo governo federal e até mesmo por líderes religiosos", declarou Mehta. "Houve uma conspiração, que tem mais a ver com política do que com produção cinematrográfica." Ela disse que um alto burocrata ameaçou atrapalhar a filmagem depois que ela negou seu pedido pelos direitos de distribuição para o estado de Uttar Pradesh, o mais populoso do país.
Mehta nega que o filme seja anti-hindu. Sem revelar o conteúdo do roteiro, ela diz que o filme mostra uma jovem viúva que desafia o estigma social de sua posição e tenta levar uma vida normal.
Shabana Azmi, uma das principais atrizes indianas e membro do parlamento da Índia, cortou seu cabelo careca. A estrela em ascensão Nandita Das aparou seus longos cabelos para retratar as excomungadas viúvas.
Este será o terceiro filme da trilogia de Mehta sobre mulheres na sociedade indiana. Seu segundo filme "Fogo" ("Fire"), foi retirado de alguns cinemas após violentos protestos. Ele conta a história de duas cunhadas que aliam-se para se confortarem numa família cheia de problemas e têm um relacionamento lésbico.
Nageena Tiwari, uma viúva de 70 anos que vive há 24 em Ganapathi, pergunta-se o que havia de errado com o último filme de Mehta. "Nós somos, em algum aspecto, diferentes dessas mulheres (do filme)? Nós vivemos exatamente como elas. Que tipo de vida é essa? Nós estamos, de alguma forma, apenas passando pelos dias", disse ela à Associated Press.

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