Vida de índio é muito sofrida
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 19 de abril de 2005
Alan Maschio<br>Reportagem Local 
Igualdade racial e inclusão social são temas pouco conhecidos pelo caingangue Cláudio Lorâncio, 25 anos. Geralmente o pouco tempo que sobra para a conversa é utilizado para negociar os preços dos balaios de vime que produz junto com a mulher, Rosana, e vende à sombra de uma árvore próxima ao Terminal Rodoviário de Londrina. Em 2005, ano declarado pelo governo federal como o da promoção nacional da igualdade social, o Dia do Índio passou em branco para Lorâncio, a esposa e os três filhos.
Na Reserva do Apucaraninha, em Tamarana (62 km ao Sul de Londrina) onde Cláudio afirma que vivem cerca de 2 mil caingangues, o dia é comemorado com práticas um pouco diferentes do que o estereótipo do índio nos obriga a imaginar. ''No nosso dia fazemos churrasco e bebemos refrigerante'', conta. ''Cerveja? Cerveja não, é muito difícil a gente beber'', garante.
Ontem o dia quase foi esquecido por Lorâncio. Era a primeira vez que ele trazia a família à Londrina para vender os cestos, a cerca de R$ 10 cada. ''Precisamos do dinheiro para comprar comida para os nossos filhos'', diz. Lorâncio vendeu oito cestos, mas vai ter que gastar pouco mais de R$ 7 para voltar à reserva, de ônibus. Passou uma semana dormindo debaixo da mesma árvore, à frente da Rodoviária, com toda a família. ''Não tem perigo. De vez em quando, vêm outros índios aqui ver como a gente está'', afirma. A prática, segundo ele, é pouco comum entre os caingangues da reserva. ''São poucos os que vêm para a cidade vender balaios. A maior parte fica no Apucaraninha, cuidando das plantações de arroz, do gado e do feijão'', conta.
Feijão que, por sinal, integrou o cardápio da família durante toda a semana. Era o que Rosana cozinhava para os filhos durante da visita da reportagem da Folha. ''Teve uns dois dias que teve carne'', lembra. Em torno do acampamento, garrafas de refrigerante, de cerveja, restos de comida e algum lixo.
A conversa foi interrompida duas vezes. Em uma, um senhor procurava por um balaio. Na segunda vez, um outro índio, que dizia estar indo a uma apresentação da cultura indígena. ''A gente fala bastante a nossa língua, mas muito da cultura já se perdeu pela convivência na cidade'', lamenta. ''Mas se for para escolher entre a cidade nos ajudar a preservar a nossa cultura ou nos ajudar a vir para a cidade, prefiro vir para cá. Vida de índio é muito sofrida''.


