Curitiba - As mulheres que consomem crack correm mais risco de vida do que os homens que utilizam a droga. Isso porque elas estão mais sujeitas à contaminação do vírus da aids e de outras doenças sexualmente transmissíveis, porque se prostituem para obter a droga. Essa é uma das conclusões de uma pesquisa inédita sobre o consumo de crack por mulheres, feita pela professora Solange Nappo, do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas da Universidade Federal de São Paulo.
A pesquisa foi feita nos dois últimos anos, com 80 mulheres de São José do Rio Preto e de São Paulo. Quatro delas confessaram que têm o vírus HIV. Todas passaram por exames, mas ainda não há resultados. Segundo Solange, a pesquisa tinha o objetivo de mostrar que mulheres também consomem crack, já que a droga é mais associada aos homens. ''Para conseguir a droga, os homens cometem assaltos e furtos, já as mulheres têm que se prostituir'', relatou. A idade das mulheres varia entre 13 a 30 anos, e quase todas têm pelo menos um filho, geralmente gerado da relação paga. ''Elas acabam distribuindo as crianças, já que são indesejadas e não foram planejadas'', relatou.
De acordo com Solange, a pedra de crack mais procurada em São Paulo custa R$ 10,00. ''Na fase mais compulsiva, consomem de 10 a 20 pedras por dia e normalmente se prostituem quase que diariamente e com grande número de parceiros, seis ou mais'', informou. A professora explicou que essas mulheres não têm condições de negociar, porque vão se prostituir quando estão na fissura, e por isso fazem qualquer coisa pelo crack ou por dinheiro para comprá-lo. O preservativo só é usado se o cliente propuser, já que as mulheres pesquisadas não gostam de usá-lo. ''Se o cliente der só R$ 5,00, aceita. Se ele diz não ao preservativo, não se usa'', exemplificou.
Ao contrário de muitas prostitutas que fazem isso para sobreviver, as que participaram da pesquisa atuam de forma isolada e são mais agressivas, buscando clientes, em vez de esperar o contato. ''Queremos modificar a idéia de que o crack é uma droga segura quanto a Aids. O grande problema não é a droga em si, mas o comportamento que ela desenvolve'', declarou Solange.
Os dados da pesquisa foram apresentados ontem em um seminário internacional sobre drogas, realizado pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC). De acordo com o pesquisador John Dunworth, chefe do Serviço de Prevenção e Tratamento de Drogas do Reino Unido, o Brasil tem muito o que ensinar sobre combate às drogas, principalmente por causa da diversificação cultural. ''Nós temos que trabalhar muito com a comunidade, e isso é uma coisa que o Brasil faz muito bem'', acrescentou.

mockup