O expediente acaba ao meio-dia, mas ela fica no trabalho até as 21 horas. A funcionária em questão não faz hora extra. Ariane de Oliveira, 20, trabalha como recepcionista na academia Competition e, depois de cumprido o horário de serviço, faz aulas de ginástica, artes marciais e musculação por toda a tarde. E um pedaço da noite. ''Dizem que estou doida'', diverte-se ela.
Doida é exagero, mas Ariane é possivelmente o que hoje se chama de ginastocólatra, isto é, uma pessoa viciada em atividade física. ''Malho todos os dias e, quando por algum motivo preciso faltar, fico mal-humorada e me sinto gorda.'' Isso pode ser abstinência de endorfina, substância relacionada ao prazer, que o organismo libera durante a atividade física.
O bancário Luís Roberto Pereira, 37, também se encaixa nesse perfil: malha por ''míseras'' 4 horas diárias. Aproveita até o horário do almoço para dar um pulo na academia. Faz musculação, esteira, alongamento, ''body'' isso, ''body'' aquilo. ''É o meu jeito de relaxar.''
O termo ''ginastocólatra'' foi criado pelo psicólogo esportivo João Ricardo Cozaci, presidente da Consultoria de Estudo e Pesquisa da Psicologia do Esporte. ''O termo sugere uma comparação com alcoólatras, porque vejo um ponto em comum entre esses grupos: a carência emocional, que pode estar relacionada à ansiedade e à depressão.'' Outro componente ligado ao vício em exercícios é o narcisismo, um fascínio anormal pela própria imagem.
''O vício em exercícios não é fenômeno raro em academias'', afirma o professor de educação física Stefan Chinem. ''Nunca vou me esquecer de uma final da Copa do Mundo: o País estava parado, mas 15 pessoas assistiram ao jogo pelo monitor da sala de ginástica. Malhando.''
Especialistas alertam sobre os limites da malhação. Uma regra é universal: todo dia não pode. ''Três vezes seriam o mínimo; cinco, o ideal; seis, o máximo aceitável'', afirma João Gilberto Carazzato, professor de Medicina do Esporte na Universidade de São Paulo - USP.
Quem malha todo dia, explica, condiciona o organismo a perceber o exercício como uma atividade obrigatória, tal como o sono e a alimentação. E aí ficar um dia sem malhar seria como passar fome ou ser privado de dormir.

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