Vice-presidente da UDR impede invasão a tiros
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terça-feira, 28 de janeiro de 1997
Agência Estado 
Oeste Notícias/Agência EstadoÀ balaO vice-presidente da UDR, Guilherme Coimbra Prata, proprietário da Fazenda Concórdia mostra a carabina que usou para evitar a invasão de sem-terra na região do Pontal
PRESIDENTE PRUDENTE - Num dos mais graves confrontos já registrados no Pontal do Paranapanema (extremo-oeste de SP), cerca de 200 trabalhadores sem-terra tentaram ocupar a fazenda Concórdia, em Tarabaí, e foram rechaçados a tiros por 20 seguranças. O conflito aconteceu ontem às 6 horas, e teria deixado apenas um ferido leve.
Durante cerca de dez minutos, foram disparados mais de 200 tiros, segundo cálculos do delegado de polícia Adalberto Gonini Jr. Os sem-terra tiveram que rolar por um barranco de 15 metros, abandonando todos seus pertences na área.
O fazendeiro Guilherme Coimbra Prata, dono da fazenda e vice-presidente da União Democrática Ruralista (UDR) do Pontal, e que comandou a ação, admitiu que atirou para matar. Só não acertei porque sou muito ruim de tiro, mas agora vou treinar e da próxima vez não erro, disse.
Após serem rechaçados, os sem-terra caminharam para o trevo de acesso da rodovia Assis Chateubriand e a ligação com Narandiba, onde montaram acampamento. O grupo prometeu tentar nova ocupação da fazenda.
Pela primeira vez no Pontal, a ocupação foi organizada em conjunto pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT). Os trabalhadores, em sua maioria, foram arregimentados pelo líder da CPT na região, João Mendes. Os sem-terra são de Regente Feijó, Anhumas, Pirapozinho, Estrela do Norte e Tarabaí. A ocupação foi liderada pelos dirigentes do MST, Valter Gomes, Cláudio Cano, e Valmir Chagas. O último é também o presidente da Cooperativa da Reforma Agrária do Pontal - Cocamp.
Antes de ocupar a fazenda Concórdia, os sem-terra entraram, por engano, no sítio GBS, de 20 hectares, pertencente a Guilherme Brandino de Souza. Eles usaram ônibus e caminhões para chegar ao local. Constatado o erro, atravessaram a pé o Ribeirão Laranjeiras, que separa a duas propriedades, e já começavam a montar o primeiro barraco quando os seguranças, montados à cavalo e usando camionetas, apareceram atirando.
Segundo Prata, 20 pessoas participaram da repressão aos sem-terra. São todos parentes, amigos e empregados, disse, garantindo que foram usadas exclusivamente armas registradas. O delegado de Tarabaí disse que foram apreendidos três rifles Puma, calibre 38, dois revolveres, 38 e uma espingarda, calibre 12, encaminhadas a perícia técnica para análise. Outras armas que estavam em poder dos seguranças não foram apreendidas, inclusive a carabina calibre 38 que Guilherme Prata fazia questão de exibir.
Só não
acertei porque
sou muito
ruim de tiro
O coordenador da CPT disse que o sem-terra Nestor Correia dos Santos foi ferido por um dos disparos feitos pelos seguranças. Santos confirmou, mas no local em que disse ter sido atingido - a coxa esquerda - a calça não chegou a rasgar. Mesmo assim, ele foi encaminhado a exame médico.
O comandante do 18º Batalhão da Polícia Militar, Major Augusto Cunha, esteve no trevo onde os sem-terra montaram acampamento e tentou dissuadi-los de permanecer naquele local. Eles foram informados de que estão cometendo um crime, por acampar nas margens da estrada que é local público, mas apesar disso resolveram erguer os barracos, disse o oficial.
No local onde acamparam, os sem-terra deixaram os limites da propriedade ocupada, mas continuam na frente da fazenda Concórdia, na parte pertencente a Orivaldo Coimbra, integrante da mesma família. O genro do proprietário, Felipe Libório disse que ontem mesmo entraria com ação de interdito proibitório na Justiça, para tentar retirar os acampados daquele local.
O fazendeiro Guilherme Prata disse que o esquema de segurança de sua fazenda permanecerá de prontidão, nos limites da propriedade, pronto para impedir qualquer nova tentativa de ocupação da área. Seus empregados recolheram os pertences abandonados pelos sem-terra e jogaram para fora da fazenda.
Os sem-terra que que acampavam na praça central do distrito de Eneida, em Presidente Prudente, foram impedidos anteontem à tarde pela PM de se transferirem para a estrada que faz divisa com a fazenda São Luiz. A propriedade havia sido ocupada pelo grupo na sexta-feira, e os sem-terra decidiram deixá-la no mesmo dia, depois que o dono obteve um mandado de reintegração de posse. Os sem-terra voltaram anteontem mesmo para a praça de Eneida.
O dirigente do MST, Cledson Mendes, e o sem-terra Elias Bezerra Torres, presos pela Polícia Federal por contrabando e porte ilegal de arma, continuam recolhidos à Cadeia Pública de Presidente Prudente. Ontem, a Justiça de Presidente Prudente decidiu ouvir a Promotoria Pública antes de arbitrar o valor da fiança a ser paga pelos presos. Segundo os dirigentes do MST, somente hoje poderá ocorrer a libertação de ambos.
O senador Eduardo Suplicy e o advogado e deputado federal Luiz Eduardo Grenhalgh, que eram esperados ontem no Pontal, cancelaram a visita, segundo líderes do MST.


