Vice-premier iugoslavo é exonerado; Otan admitiu mais um "erro"
Belgrado, 28 (AE-AP) - Numa iniciativa que assinala o contínuo desafio de Slobodan Milosevic à Otan, o moderado vice-premier iugoslavo que pediu ao governo para chegar a um compromisso com a aliança foi demitido hoje (28).
A exoneração do falante Vuk Draskovic ocorreu enquanto a Otan intensificava sua guerra aérea contra a Iugoslávia e reconhecia um erro fatal que, segundo autoridades sérvias, matou pelo menos 20 pessoas num bairro residencial no dia anterior.
Enquanto isso, mais de 2.000 refugiados kosovares cruzavam a fronteira para a Albânia, falando de uma intensificação da campanha sérvia para expulsá-los da província. Outros 4.000 chegaram à Macedônia, incluindo albaneses étnicos que disseram que foram expulsos de outras partes da Sérvia.
"Podemos estar vendo um empurrão final", disse Ron Redmond, um porta-voz da agência da ONU para refugiados.
Numa febril atividade diplomática visando pôr fim ao conflito, o ex-primeiro-ministro russo Viktor Chernomyrdin preparava-se para viajar amanhã para a Alemanha e depois para a Itália e Belgrado.
Mas o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, advertia para que não sejam criadas "expectativas irrealistas" e a demissão de Draskovic mostrava que linha-duras ainda estavam no controle do governo iugoslavo.
Em Washington, a Câmara dos Representantes aprovou uma legislação que obriga o presidente Bill Clinton a conseguir aprovação do Congresso antres de enviar "elementos terrestres" para Kosovo.
Sirenes antiaéreas soaram em Belgrado na noite de hoje, advertindo sobre uma possível nova onda de ataques. As cidades de Nis, Novi Sad e Kragujevac também foram colocadas em alerta.
A exoneração de Draskovic, feita pelo primeiro-ministro Momir Bulatovic e anunciada pela mídia estatal, ocorreu apenas três dias depois que ele disse que o governo estava pronto para aceitar um acordo de paz prevendo uma presença da ONU em Kosovo que incluiria países da Otan.
Uma concisa nota divulgada pela agência de notícias Tanjug afirma que Draskovic foi demitido por causa de suas "declarações públicas que são contrárias a posições do governo e põem em risco o respeito ao governo federal".
Draskovic tem dito que a liderança sérvia deve reconhecer que não pode derrotar a Otan e que o mundo está unido contra ela.
Um oficial da Otan, que pediu para não ser identificado, afirmou que a ação foi "a primeira fratura visível" na liderança iugoslava e disse que ela "mostra o preço que se paga por falar a verdade em Belgrado".
Mas Draskovic é a única autoridade que tem se manifestado contra o regime durante os ataques aéreos, e sua demissão levanta dúvidas sobre qualquer significativo enfraquecimento do governo.
O antigo líder oposicionista, que uniu-se ao governo apenas em janeiro, fez declarações nacionalistas depois de sua demissão e negou qualquer racha na liderança.
"Talvez algumas pessoas no Ocidente acreditem que eu poderia ser o homem do amanhã com quem a Otan poderia cooperar", disse ele. "Não! A Otan é o agressor... Somos vítimas desta cega revanche contra toda uma nação".
Condenada pelas autoridades sérvias por um ataque que segundo fontes locais deixou pelo menos 20 mortos - incluindo sete crianças -, a Otan admitiu que uma de suas bombas guiadas a laser saiu de controle e atingiu a cidade sulista sérvia de Surdulica.
Autoridades locais disseram que 50 casas foram destruídas e outras 600 danificadas. Elas afirmaram que 11 mísseis atingiram a cidade.
Na noite de hoje, outro míssil atingiu uma área logo nos limites de Surdulica, informou a Tanjug. Não foram imediatamente noticiados vítimas ou danos.
Autoridades iugoslavas dizem que centenas de civis já foram mortos nos ataques da Otan que visam forçar Milosevic a aceitar um plano de paz ocidental para Kosovo.
O porta-voz da Otan Jamie Shea afirmou que uma das "bombas inteligentes" desviou-se do alvo - uma base militar iugoslava - e caiu a 200 ou 300 metros do ponto numa área residencial.
"Quero expressar pesar por qualquer vítima que possa ter resultado", disse o secretário de Defesa britânico, George Robertson.
O ministro britânico afirmou que só uma "pequena fração" da mais dos 4.400 ataques da Otan desde o início da campanha aérea em 24 de março provocou "consequências não intencionais", incluindo a perda de vidas civis.
O reconhecimento da Otan veio enquanto a aliança continuava a bombardear alvos em Belgrado e arredores e também em Kosovo e Montenegro, a república menor que junto com a Sérvia forma a Iugoslávia.
Em Montenegro, está localizado o porto de Bar única saída sérvia para o mar. É de onde os sérvios recebem combustível, principalmente por parte da Rússia. Essa região passou a ter grande importância para o comando militar da Otan, que já tem ordem expressa do secretário-geral, Javier Solana, para impor rigoroso embargo de petróleo à Iugoslávia.
Hoje, aviões da aliança sobrevoaram a região e foram alvo da artilharia antiaérea de navios da frota iugoslava, estacionados no porto ou ancorados em alto-mar.
"Todos os aviões da Otan retornaram sem problemas a suas bases", disse o porta-voz Jamie Shea. Até agora, tanto os aviões da Otan quanto sua Marinha não incluíram entre seus alvos nenhuma embarcação de guerra iugoslava.
Albaneses étnicos chegaram à Albânia nesta quarta-feira a bordo de tratores e a pé, alguns contando terem visto montes de corpos nas comunidades de Meja, perto da cidade kosovar de Djakovica.
O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) informou que os relatos aparentemente apontavam para uma nova onda de assassinatos no sudoeste de Kosovo.
"As histórias... parecem indicar que mais pessoas foram mortas nos últimos dias na área de Djakovica por tropas paramilitares do que em qualquer outro caso de ataque anterior", disse Kris Janowski, do Alto Comissariado da ONU para Refugiados.
Muitos dos refugiados que chegaram à Macedônia eram albaneses étnicos da Sérvia que chegaram ao país por meio de passagens nas montanhas longe da concentração das equipes de socorro. O ministro da Defesa da Macedônia disse que cinco refugiados foram mortos por minas terrestres no lado iugoslavo da fronteira.
Os refugiados foram forçados a dormir do lado de fora, em barracas de plástico, no posto de fronteira de Blace porque não havia mais espaço para eles. Milhares de outros que chegaram depois esparavam para pegar um trem para a fronteira, disse ele.
Mais de 600.000 refugiados deixaram Kosovo, a província sérvia de maioria albanesa localizada no sul da Iugoslávia, desde março. Outras centenas de milhares de albaneses étnicos estão sem abrigo e foram expulsas de casa em Kosovo, que tinha uma população de dois milhões antes da guerra.





