Rio, 25 (AE) - O vice-presidente da Comissão Européia, o espanhol Manuel Marín, advertiu hoje que o Mercosul ainda terá de "caminhar muito" em seu processo interno de integração, para formar uma zona de livre-comércio com a União Européia. De acordo com o comissário espanhol, terá de ser superada a grande discrepância entre os níveis de integração institucional dos dois blocos.
"A União Européia e o Mercosul terão de determinar sistemas equivalentes", argumentou Marín, salientando que o bloco europeu vive uma realidade de livre circulação de mercadorias e trabalhadores, além de gozar de instituições como um tribunal comum para a resolução de conflitos. Enquanto isso, o Mercosul ainda está no estágio de uma união aduaneira, "com quatro administrações individuais".
Apesar disso, o vice-presidente da Comissão Européia assinalou que "a UE não está pedindo que o Mercosul repita o modelo europeu". O bloco do Cone Sul, reconheceu Marín, terá de criar o seu modelo, segundo a sua própria realidade e a sua história.
"Mas pedimos regras de equivalência, normas e padrões comuns." O comissário espanhol avalia que esse aspecto da associação "será mais difícil de negociar do que a agricultura, escolhida pelos políticos" como o problema mais sério.
Ele prevê que, por causa dessa necessidade, as negociações com a UE acabarão intensificando a integração do Mercosul. Ele não quis avaliar se essa integração passa por uma moeda única. "Isso é assunto interno do Mercosul."
Estratégia - Marín elogiou a estratégia adotada e a firmeza demonstrada pelo Brasil e seus parceiros no Mercosul nas negociações com a União Européia, de um lado, e, de outro, com os Estados Unidos para a formação da área de Livre Comércio das Américas (Alca).
Indagado se, na condição de representante do Mercosul, teria feito o mesmo, o comissário espanhol, que acompanhou de perto as negociações, só que do outro lado da mesa, respondeu que sim.
"É um segredo de polichinelo que, se a União Européia não se mover rapidamente em direção à América Latina, os Estados Unidos o farão, e vice-versa", afirmou ele, que é membro do Partido Socialista Espanhol e, depois de 14 anos como comissário europeu, está deixando a comissão para ir dar aulas na Universidade Carlos III.
Essa percepção, segundo Marín, foi essencial para que a Comissão Européia se esforçasse em obter o mandato negociador para iniciar as discussões com o Mercosul com vistas a uma associação interregional.
Quanto aos termos do mandato, Marín também considera que são consequência da firmeza do Mercosul em não aceitar a exclusão do setor agrícola.
Vencendo resistências, sobretudo da França, a comissão obteve dos 15 países membros autorização para negociar a derrubada de barreiras tarifárias, em todos os setores, a partir de julho de 2001, e de não-tarifárias, já a partir de agora. Ele lembra que atitude semelhante do Mercosul na negociação com os Estados Unidos deixou claro para o presidente Bill Clinton que, sem um fast track irrestrito, não progredirão as negociações para a criação da Alca.

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