No primeiro semestre de 1998, quando o Viagra desembarcou no mercado brasileiro, vinha cercado de dúvidas. Elas envolviam principalmente a eficácia e os prováveis efeitos colaterais do produto saído de laboratórios americanos. Passados três anos, o quadro é muito diferente. Mais experientes com a droga, os médicos estão passando a receitá-la para um número crescente de pacientes – e com bons resultados. Segundo cálculos do Laboratório Pfizer, já são quase 200 mil brasileiros que visitam com regularidade as farmácias em busca das caixinhas com quatro comprimidos azuis, em forma de losango, cujo preço varia de um lugar para outro entre R$ 60,00 e R$ 75,00.
De acordo com estimativas de clínicas consultadas pela reportagem, o remédio é eficaz em sete de cada 10 casos de disfunção erétil. Em consultórios geriátricos e de terapia psicológica, o Viagra é apontado como agente de uma revolução: tem ajudado a derrubar tabus em torno do sexo na terceira idade e a devolver a auto-estima a muitas pessoas idosas.
No meio científico, pesquisadores continuam a estudar a potencialidade do citrato de sildenafil – o princípio ativo da droga. Há poucos dias, uma equipe do Instituto do Coração brilhou no encontro anual do American College of Cardiology, um dos mais importantes do mundo, com um estudo no qual demonstrava o que parecia impensável: há casos de deficiência cardíaca em que o Viagra faz muito bem para o paciente.
O estudo, realizado sob a coordenação do médico Edimar Alcides Bocchi, da USP, reuniu 23 pacientes, com idade média de 45 anos. Todos apresentavam grau elevado de insuficiência cardíaca, distúrbio físico apontado como forte causador de disfunção erétil. Segundo Bocchi, isso ocorre por três motivos. O primeiro é a própria doença, que reduz o fluxo sanguíneo na área peniana. O segundo são os medicamentos para conter o distúrbio. Eles também causam alterações vasculares e impotência.
O terceiro motivo é psicológico. A impotência corrói a auto-estima e os relacionamentos afetivos dos pacientes. ‘‘Há casos de pessoas que suspendem a medicação e colocam a vida em risco, na tentativa de superar a impotência’’, afirma Bocchi.
No Incor, os pacientes foram divididos em dois grupos. Enquanto um tomava placebo, o outro, doses de citrato de sildenafil. Na avaliação final, os pacientes que ingeriram a droga mostraram melhora no problema da disfunção erétil e uma vida sexual com mais qualidade. De quebra, registraram inesperado incremento na capacidade metabólica, o que lhes permite uma carga de exercício físico maior. ‘‘Isso nunca havia sido medido antes’’, comemora o coordenador do estudo.
Nem todas as pessoas com problemas cardíacos, porém, podem tomar Viagra. O remédio é contra-indicado para quem toma remédios à base de nitrato, como Monocordil, Isordil e outros. Os médicos explicam que eles atuam como vasodilatadores e que a combinação com o citrato de sildenafil, outro vasodilatador, é arriscada. ‘‘Pode desencadear queda brusca da pressão arterial e enfarte’’, explica o urologista Eduardo Bertero, especialista em disfunção sexual pela Universidade de Boston.

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