Moscou, 09 (AE-REUTERS) - Novas dúvidas foram levantadas hoje (09) sobre a capacidade do presidente russo, Boris Yeltsin, de promover seu retorno político após uma série de problemas de saúde, depois que sua decisão de voar à Jordânia para o funeral do rei Hussein provocou o resultado inverso do desejado.
Médicos advertiram ao presidente de 68 anos para não fazer a exaustiva viagem de um dia, quase uma semana depois de ele ter deixado o hospital onde tratou-se de uma úlcera estomacal hemorrágica.
Comentaristas políticos disseram que ele viajou para a Jordânia a fim de mostrar que ainda pode realizar pelo menos tarefas cerimoniais e furtar as luzes do ascendente primeiro-ministro Yevgeny Primakov, cuja estatura está crescendo às custas da de Yeltsin.
Mas imagens de televisão transmitidas da Jordânia para todo o mundo mostraram Yeltsin sendo apoiado por sua mulher Naina e depois pelo ministro do Exterior Igor Ivanov. Pálido e cansado, ele retornou a Moscou depois de poucas horas, sem mesmo ver o túmulo do rei.
"Ele queria mostrar que está apto, mas, meu Deus, o mundo viu um homem velho, adoentado", disse Viktor Kremenyuk, vice-presidente do centro de estudos Instituto Canadá e EUA, em Moscou.
"Ele está fora da realidade. Todo mundo viu que a Rússia é um país sem presidente. O homem que eles viram não era uma homem capaz de governar país tão grande neste momento crucial".
Jornais ridicularizaram os esforços de Yeltsin para reafirmar sua autoridade e mostrar ser capaz de enfrentar a crise econômica da Rússia depois de semanas de marginalidade política com a úlcera e , antes disto, uma pneumonia.
"Yeltsin não pôde chegar ao túmulo, mas esteve bem perto dele", declarou o popular Moskovsky Komsomolets.
Seu desempenho atraiu críticas de políticos, desde o líder comunista Gennady Zyuganov até o liberal Vladimir Lukin.
"O presidente não estava particularmente em boa forma. Todos nós vimos isso", disse Lukin à rádio Ekho Moskvy. "Se a Rússia é realmente a coisa mais importante para ele como presidente, ele deveria ter-se permitido recuperar-se plenamente e não ter ido à cerimônia".
Zyuganov aproveitou o último sinal de fraqueza para pedir novamente por mudanças constitucionais a fim de diluir os vastos poderes presidenciais.
"Acreditamos que deveria ser preparado um documento que iria restringir arbitrariedades de um desvalido, indisposto... que está sentado no Kremlin, ou deitado num leito hospitalar, ou permanecendo numa clínica. Desde meados de 1995, ele nunca trabalhou por uma semana inteira", afirmou Zyuganov.
Aparentemente, a viagem a Amã visava dispersar qualquer impressão de que Yeltsin não estava apto a governar, tornando assim desnecessárias mudanças na constituição de 1993. Ela foi moldada para atender a seu desejo de ter poderes sobre o parlamento - o bastião da oposição.
A outra razão, disseram analistas, era mostrar a Primakov, um especialistas em questões árabes que conheceu o rei Hussein, que Yeltsin mantém-se como uma força a ser levada em consideração. Nos dois campos, Yeltsin teve pouco sucesso aparente.
Primakov assumiu o controle dos assuntos do dia-a-dia na Rússia e tem pedido a Yeltsin, pelo bem da estabilidade, para concordar em não dissolver o parlamento ou demitir o gabinete - e em troca o parlamento se comprometeria a não tentar derrubar o governo.
As questões levantadas pela viagem de Yeltsin à Jordânia, e a crescente especulação sobre desentendimentos com Primakov, também colocou o Kremlin numa defensiva cada vez maior.
Sergei Mironov, o médico-chefe de Yeltsin, disse hoje que o presidente estava "bem". Autoridades do Kremlin negaram uma reportagem dando conta que ele necessitou de atendimento médico na Jordânia e um chegou mesmo a dizer que ele pretende viajar à América Latina e áfrica antes de seu mandato expirar em 2000.

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