São Paulo, 06 (AE) - Escola de samba favorita é aquela do coração. Mas a julgar pelo número de títulos Vai-Vai, Camisa Verde e Branco, Rosas de Ouro e Nenê da Vila Matilde são sempre as favoritas do Grupo Especial do carnaval paulistano. Para vencer o campeonato deste ano, elas prometem muitas atrações e mostram que a festa pode ser milionária, romântica como um conhecido cantor popular, passar por agruras como qualquer folião e até ter o toque do bumba-meu-boi de Parintins.
Para apresentar seu enredo "Nostradamus", a alvinegra Vai- Vai, detentora de nove títulos e vencedora do ano passado, não economizou. A escola do Bexiga gastou mais de R$ 1,2 milhão. Segundo seu presidente, Sólon Tadeu Pereira, é o carnaval mais caro da história paulistana. "Se não houver imprevistos, será impossível a gente perder", avisa.
A apresentadora Eliana, que desfila na escola há quatro anos, não quis saber de carro alegórico. Desta vez, vai no chão, cercada de 300 crianças representando a Nova Era. "Os carros estavam cada vez mais altos e eu ficava distante delas", diz Eliana. "Vou sentir muito mais a energia do público".
A modelo Luíza Ambiel e o ator Matheus Carrieri devem dividir o carro abre-alas, o das previsões. Como no ano passado, Luíza vai estar numa banheira, só que sem água, mais uma alusão ao quadro do programa "Domingo Legal" do Gugu, que a tornou famosa. Carrieri, que recentemente posou nu para uma revista gay, virá quase como veio ao mundo.
Outras figuras de destaque: as atrizes Isadora Ribeiro e Nicole Puzzi, a ex-miss Brasil Dayse Nunes, a stripper Malu Bailo, o grupo vocal Fat Family, os pagodeiros do Negritude Júnior e até o cineasta José Mojica Marins, o Zé do Caixão.
Mostrar na avenida as previsões da figura da Idade Média que até hoje intriga as pessoas é um sonho do carnavalesco Chico Spinosa, que não teve sucesso ao propor o tema à carioca Beija-Flor e promete não só luxo, mas criatividade. A Vai-Vai, no entanto, terá de contornar um problema com a comunidade judaica paulistana, que não gostou de saber que a agremiação quer levar para o sambódromo a cruz suástica, símbolo máximo do nazismo. Em suas profecias, Nostradamus alertava para uma figura como Hitler. "Neonazista é mudar a história", defende-se Spinosa. Segun-da-feira diretores da agremiação vão-se reunir com os descontentes. Para não desagradá- los, Pereira já pensa em quebrar o símbolo em plena avenida. Romântica - A Camisa Verde e Branco, que também vai tentar o título de campeã pela décima vez, vai homenagear o cantor carioca Elymar Santos, desde seu nascimento e sua infância pobre num barraco do violento Morro do Alemão até cair no gosto do público e tornar-se um dos campeões em vendagem de discos. "Ele poderia ser um marginal e serve de exemplo para muito rapaz que tem a desculpa da pobreza para virar bandido", entende Magali dos Santos, presidente da escola.
Elymar Santos aparecerá no último carro. Até fechar o desfile, a Camisa contará episódios interessantes de sua vida - em 1985 o cantor vendia um Fusca e um pequeno apartamento para financiar seu primeiro show no Canecão. Hoje, mora num enorme apartamento no Rio. "Ele é um emergente como a Vera Loyola", compara o carnalesco Tito Arantes Filho.
Espalhadas por três carros alegóricos, as divas desse ídolo popular de 46 anos: as cantoras Núbia Lafayette, Zezé Gonzaga, Marisa Gata Mansa, Claudete Soares, Carmem Costa, Dóris Monteiro, Ellen de Lima, Nanna Caymmi. Algumas ele conheceu ainda na infância, quando a mãe o levava ao auditório da antiga Rádio Nacional. Cauby Peixoto, ídolo do cantor, também estará na avenida.
A escola preferiu investir na beleza das garotas da comunidade. "Algumas modelos só querem promoção no carnaval e depois não vão frequentar minha quadra", entende Arantes. Michella Marchi, miss Brasil 98, convidada por Elymar Santos, é uma das poucas beldades conhecidas. Embora o cantor em suas letras às vezes exagere na descrição dos atributos femininos e seja conhecido por sua ousadia, Arantes espera resgatar o espírito "romântico" do carnaval, com mais rostos do que bumbuns. Redenção - A Rosas de Ouro, da Vila Brasilândia, que é vencedora de seis campeonatos, trará o tema "A Divina Comédia de um Folião". O objetivo desse enredo bem comportamental - que abusa do conceito da inteligência emocional - é mostrar que depois das agruras vem a redenção. Metáfora para mostrar a trajetória e o estado de espírito de um folião nos dias que antecedem o desfile: depressão, nervosismo, um verdadeiro inferno astral.
Depois, a vitória e o paraíso. O carnavalesco Raul Diniz acredita que o público entenderá bem o tema. A modelo Viviane Araújo, capa da revista Sexy, estará no carro da luxúria. Nenê - A Nenê da Vila Matilde apresentará o enredo "Voa águia, Voa que Sampa é Toda Tua", desenvolvido pela carnavalesca Vaníria Nejelschi. A escola, fundada em 1949, conquistou seu último campeonato em 1985, mas já obteve vários títulos antes de o carnaval paulistano tornar-se "oficial", o que a faz como sempre favorita no carnaval paulistano.
Para a águia mostrar São Paulo, suas amplas dimensões e um carnaval ao mesmo tempo clássico e vanguardista, a escola contou com a ajuda dos que fazem o bumba-meu-boi de Parintins, no Amazonas. A personal trainer Solange Frazão, capa da Playboy de janeiro e apresentadora do programa de ginástica "Passo a Passo", da Rede Mulher, será a musa da bateria. Solange jamais desfilou em sua vida e admite que está ansiosa. "Não vou fazer feio", promete.

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