Vi a morte umas 10, 15 vezes, diz organizador da viagem
Alvorada do Sul - Francisco Carlos Paulineli Ferreira, de 60 anos, o Chiquinho, foi quem arregimentou o grupo de Alvorada do Sul para a pescaria no Rio Paraguai. Ele já havia participado do passeio turístico quatro vezes, uma delas na embarcação que naufragou. Todos pagaram a viagem durante 15 meses, em quatro parcelas. Partiram de Alvorada rumo a Porto Murtinho (MS), na divisa com o Paraguai, no dia 19 de setembro, uma sexta-feira. O passeio teria início às 16 horas do sábado, mas o comandante e dono da embarcação sugeriu antecipá-lo em 12 horas, já que o tempo estava bom. A volta, antes marcada para a quinta-feira, 25, também foi antecipada em um dia, com a anuência dos turistas. Nos quatro dias a bordo, tudo correu muito bem, segundo Chiquinho. "A gente acordava umas 6 horas, tomava café da manhã e ia pescar. Voltava ao meio-dia almoçava, tomava umas e outras pra descansar, ia pescar de novo e voltava pro barco umas cinco, seis horas. Aí começava a festa de novo", relata.
A embarcação não era grande, mas confortável. Os quatro quartos, localizados no andar inferior, acima do maquinário, tinham ar-condicionado. Eram quatro passageiros em cada quarto. No andar intermediário ficava o refeitório, e no piso superior, a área de lazer, com churrasqueira. No último dia do passeio, os turistas ofereceriam um churrasco à tripulação paraguaia assim que o barco atracasse no cais de Carmelo Peralta, a cidade do lado paraguaio do rio, onde o comandante morava. O tempo já estava ruim.
"O barco estava subindo o Rio Paraguai, a uns 50 metros do cais, mas estava uma ventania muito forte e a embarcação voltou a cerca de 700 a 1.000 metros de onde iria atracar. E aí o vento acalmou e o comandante retomou o curso do rio, subindo, até onde iríamos atracar. Foi aí que veio de frente o tornado", conta Chiquinho, que é gerente comercial de uma empresa de produtos agrícolas em Alvorada do Sul.
"Nós estávamos a 3 metros de altura da água, no refeitório. A maré pegou em cima do barco e ele começou a deitar. Um amigo meu gritou: vai afundar, vai afundar! E caímos!". O amigo é o policial aposentado José Ribeiro da Silva Filho, que também sobreviveu ao acidente. Chiquinho diz que algo o impulsionou para a superfície depois que foi sugado para o fundo e por isso conseguiu nadar até o casco do barco, que já estava tombado. "Consegui agarrar no casco do barco, ele foi descendo rio abaixo, afundando, afundando, afundando. Aí eu olho do lado e tinha um banco de madeira que estava em cima da embarcação a uns três metros de mim. Consegui nadar até ele e fomos descendo o rio, até que apareceu o socorro", descreve. Lutando contra a maré, o gerente comercial conseguiu enfim entrar no bote, onde já estava o policial aposentado. Ribeiro tinha se escorado num tonel de óleo. Chiquinho diz que o bote que o resgatou devia ser um dos cinco que ficavam acoplados ao barco-hotel.
Os onze turistas que morreram tiveram dificuldades para deixar o barco porque estariam nos dormitórios e no refeitório no momento do naufrágio. Um deles estava tomando banho. Quando pensa na sorte que teve, Chiquinho segura o escapulário que carrega no pescoço. O colar e o calção que usava foram os únicos pertences que lhe restaram quando saiu da água. "Deus me guiou", diz. E a história de que no momento em que a morte é iminente vem um filme à cabeça aconteceu com ele. "Rapaz, eu vi a morte na minha frente umas 10, 15 vezes. Via a embarcação querendo afundar e a única coisa que eu lembrava era dos meus amigos", conta.(D.P.)





