Veteranos norte-americanos voltam para ajudar o Laos e a si mesmos
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quarta-feira, 19 de abril de 2000
Por Denis D. Gray 
PHONE HONG, Laos (AE-AP) - Pesadelos com o mais intenso bombardeio aéreo da história trouxeram o veterano de guerra norte-americano Lee Thorn de volta aos antigos campos de batalha na Indochina, desta vez para ajudar a tratar o povo do local, que continua sofrendo, e a si mesmo.
Quase todas as noites, por três décadas, Lee Thorn diz que sonhou que estava montando numa bomba e gritava em direção à terra e a um grupo de crianças e animais que estavam para ser mortos. Bombas como aquelas que ele havia carregado os aivões da marinha.
Por isso, o veterano de 56 anos veio para o Laos e para o Vietnã, para os lugares que ele ajudou a destruir, e os pesadelos desapareceram. Pela primeira vez em 31 anos, Thorn foi capaz de dormir até o amanhecer.
"Você sabe, o Laos não é sequer mencionado nos livros de história das escolas secundárias norte-americanas", diz Thorn, entrando num dos 10 hospitais abandonados para o qual ele forneceu estoques de remédios vitais. "Ainda assim, o que aconteceu aqui foi o pior dos horrores de guerra."
A última bomba norte-americana caiu no Laos 27 anos atrás e os comunistas celebraram o 25º aniversário de sua vitória este ano, mas Thorn diz que a reconciliação está longe de ser completa e o sofrimento de guerra persiste.
Munição norte-americana que não explodiu, particularmente pequenos dispositivos pessoais, continuam a matar e mutilar centenas de pessoas nos campos laosianos, especialmente na Planície de Jarra, o local de nascimento de Boonthanh Phommasathit, que auxilia Thorn em seus planos.
Quando menina, Boonthanh fugiu dos bombardeios e, vários anos depois da vitória comunista, tornou-se refugiada pela segunda vez quando ela, seu marido e dois bebês escaparam para a vizinha Tailândia. No final, eles conseguiram asilo nos Estados Unidos.
Assistente social em Etna, Ohio, Boonthanh visitou sua terra natal em 1991, encontrando miseráveis condições de saúde e pobreza em Phone Hong, uma cidade a 112 quilômetros ao norte de Vientiane, onde seus pais viviam.
Ninguém respondeu seus pedidos de ajuda até que ela estabeleceu contato com Thorn, em 1997. Nos anos 60, ele havia retornado do sudeste asiático para tornar-se um importante organizador e consultor contra guerras em São Francisco. Ele também sofreu com desordens causadas por estresse pós-traumático
lutou contra o alcoolismo, teve problemas conjugais e insônia.
O Laos, diz Thorn, ficou em sua mente. Era o local esquecido da Guerra do Vietnã e precisava de ajuda. Um dos mais pobres países do mundo, o Laos tem uma das maiores taxas de mortalidade infantil da ásia e uma expectativa de vida de 53 anos. O orçamento destinado à saúde para a província de Vientiane, onde Thorn decidiu trabalhar, é de 50 centavos de dólar por pessoa por ano.
No início de 1998, Thorn e seu amigo de infância Richard Stoll
um advogado de São Francisco, recolheram 90 quilos de medicamentos em sacolas e enviaram para Phone Hong. Boonthanh trouxe mais remédios. Trabalhando com médicos, professores e autoridades locais, o Projeto Corações e Mentes-Laos será enfocado este ano no fornecimento de água, saneamento básico e educação para saúde para escolas de vilas pobres.
O auxílio, diz Thorn, vem de cristãos conservadores, laosianos comunistas, veteranos da Guerra do Vietnã e da Força Aérea norte-americana, que recentemente transportou o último pacote de ajuda de Thorn, 10 toneladas de medicamentos no valor de US$ 1 milhão, sem cobrar nada.
Na tentativa de ser mais auto-suficiente, Thorn lançou o excelente "Arabica typica", um café produzido no Laos, no mercado norte-americano e destina os lucros para os projetos no país asiático. "O que nós estamos tentando fazer é o oposto da guerra", diz Thorn, um homem de fala suave com uma bem aparada barba branca. "O nosso é um projeto de reconciliação."
Thorn lembra que não questionou inicialmente o envolvimento dos EUA na Indochina quando servia num porta-aviões na costa do norte do Vietnã em 1966. Muitos dos aviões do porta-aviões despejaram suas cargas sobre a Planície de Jarra, onde as forças apoiadas pelos EUA tentavam deter os comunistas laosianos e seus aliados norte-vietnamitas. Os EUA, no final das contas, lançaram 2 milhões de toneladas de bombas no Laos, mais do que foi usado pelas forças durante toda a Segunda Guerra Mundial.
O que o fez uma pessoa contrária à guerra e deu início a seus traumas, conta Thorn, foi o ataque à refinaria de petróleo no porto norte-vietnamita de Haiphong. Uma intensa tempestade de fogo foi iniciada e atingiu as áreas residenciais ao redor. O então jovem oficial da marinha recebeu a função de fazer a "peneira" depois da operação de ataque - três vezes.
Thorn aponta um mural numa parede de um templo budista próximo a Phone Hong descrevendo uma visão do inferno: homens perfurados por lanças, cozidos e abatidos como animais, mulheres encarceradas e estupradas.
A primeira vez que ele veio a este velho e calmo santuário foi durante sua viagem ao Laos e ao Vietnã em 1998, e ele se tornou um local especial, o lugar onde seus pesadelos tiveram fim. "Para mim esta pintura é a guerra e ela está colocada próxima a imagens de grande paz", diz Thorn. "Eu comecei a entender que os aldeões aqui, que sofreram tanto, poderiam aceitar tal horror como parte da vida, que eles poderiam levar uma vida normal."
"Eu fui abençoado. Comecei a ter perspectivas para minha própria história", diz Thorn enquanto monges e velhos habitantes agrupam-se a sua volta. "Eu comecei a entender que você não pode enterrar o mal."


