Vereadora fica irritada durante depoimento e tem acesso de raiva
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 22 de julho de 1999
Por Gláucia Leal 
São Paulo, 23 (AE) - Trapalhadas da defesa e um breve acesso de raiva por parte da vereadora Maeli Vergniano (sem partido) marcaram o segundo dia de depoimentos de testemunhas na Comissão Processante que analisa o pedido de cassação do mandato da parlamentar.
De manhã, a advogada dela, Tânia Liz Nogueira, interrompeu os trabalhos para informar que seu telefone fora grampeado. Ela alegou falta de condições emocionais e psicológicas para continuar a defesa, sustentando que a informação fora dada pelo presidente da Comissão de Direitos e Prerrogativas da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Alberto Rollo, que foi representante do ex-deputado Hanna Garib, cassado no início do mês.
Ao ser procurado, por telefone, pela comissão, Rollo, porém, negou tê-la contatado para falar sobre isso.
A presidente da comissão, Ana Maria Quadros (PSDB), chegou a cogitar a indicação de um advogado da Câmara para que não houvesse comprometimento do prazo de votação da cassação - 16 de setembro.
Tânia pediu desculpas publicamente pelo "engano". Afirmou que o autor da informação, na verdade, era Paulo Leite, ex-assessor de Maeli. Ele é uma das testemunhas de defesa que serão ouvidas amanhã à tarde. A comissão considerou enviar o caso à Comissão de Ética da OAB, mas decidiu, em votação, acatar as desculpas.
Durante os depoimentos das testemunhas de acusação Jurgleide Pereira da Silva Lélis, a ex-secretária de gabinete Maria Luiza Barbante e a ex-assessora Maria Vasti Anizeli da Silva, Maeli manteve-se voltada para a parede, de costas para a comissão. Por volta das 15h30, enquanto era ouvida Maria Vasti, irritou-se por estar sendo fotografada.
Chorando e elevando a voz, bastante nervosa, ela deixou o plenário e até as 19 horas, quando deveriam começar a ser ouvidos José Dionisio Pereira, Boaventura Cisotto Netto e João Navarro Dias, ainda não havia retornado.
Relatório - No mais longo dos depoimentos - mais de três horas -, o guarda civil metropolitano Romildo Aparecido Santana, que trabalha na fiscalização da área da regional de Pirituba, afirmou que chegou a fazer um relatório de serviço informando seus superiores que o chefe da fiscalização da regional, José Dionisio Pereira, o Alemão, também convocado para depor, teria sido transferido para a AR de São Mateus por não ter conseguido arrecadar a propina pedida por Maeli. Santana relatou que a vereadora exigia, segundo Alemão, a quantia de R$ 6 mil e dois caminhões de frutas para uma festa de confraternização na regional no fim de 1998.
Ele afirmou ainda que uma mulher o procurou apresentando-se como advogada do ex-assessor Paulo Leite, sugerindo que, se ele não fosse depor, receberia uma gratificação. O guarda metropolitano disse também que moradores do Jardim Shangri-lá contaram-lhe que tinham pago "mil contos" a fiscais de Pirituba para que pudessem construir barracos em área de ocupação proibida.
A ex-secretária Maria Luiza Barbante confirmou que o ex-assessor de Maeli Rubens Moura trabalhou na regional, apesar de ser funcionário do gabinete. Ela disse ter assinado recibos com valores de R$ 50,00 a R$ 100,00. Há suspeitas de que essas quantias tenham sido pagas a Moura por camelôs para garantir local privilegiado para trabalharem durante o carnaval de 1997.
Jurgleide Lélis, moradora do City América, bairro na área da AR-Pirituba, confirmou suas suspeitas sobre o pagamento de propinas feito por moradores para fiscais da administração para que não fossem retiradas cancelas instaladas irregularmente.
Em seu depoimento à Comissão Processante, o ex-chefe de apreensões da Administração Regional de Pirituba José Dionísio Pereira, o Alemão, confirmou que a assessora de Maeli Vergniano, Evelise, que trabalhava na regional, chegou a pedir dinheiro e dois caminhões de frutas para ele. As "doações" deveriam ser arrecadadas entre os camelôs. Pereira não especificou valores e garantiu não ter aceito a pressão. Por conta disso, ele teria sido transferido para a a Administração de São Mateus, por "vingança da vereadora".
O funcionário do gabinete de Maeli, o pastor evangélico João Navarro Dias, testemunha de defesa da vereadora, disse em seu depoimento, o último de hoje, que nunca soube que ela recebesse propinas. Ele afirmou, porém, que chegou a alertá-la de que o motorista Elizeu Sanches costumava segui-la. Amanhã serão ouvidos, entre outras testemunhas, o marido de Maeli, Josué Migliarelli, o irmão da vereadora Márcio Tristão e o ex-assessor Rubens Moura, acusado de recolhimento de propina.
Na Comissão Processante que analisa o pedido de cassação do mandato do vereador José Izar (PFL), que se reuniu de manhã, foram ouvidos os empresários Carlos Eduardo Toledo de Artigas Prado e seu sócio Antonio Amaro. Os dois afirmaram terem pago propina no valor de R$ 6 mil a fiscais da regional da Lapa, mas não citaram o nome de Izar, que mantinha o controle político do órgão. Na segunda-feira, devem depor testemunhas de defesa.


