Vereador se contradiz em depoimento à CPI dos fiscais
São Paulo, 29 (AE) - O vereador José Izar (PFL) entrou em contradição hoje, ao depor na CPI da Câmara Municipal que investiga irregularidades na administração municipal. Em cerca de duas horas e meia, Izar, que é acusado de ser o principal beneficiário de um esquema de propinas na Administração Regional da Lapa, negou as acusações, limitando-se a afirmar "desconheço", "só soube pro meio da imprensa" e "se soubesse, teria tomado as providências necessárias". O vereador pode ser cassado pela Câmara. Ele já foi indiciado pela polícia por concussão, formação de quadrilha, prevaricação e peculato.
"O depoimento de Izar colide com o de outras testemunhas e, inclusive, com provas materiais. A partir de agora, vamos analisar todas as versõas para emitir um parecer", afirmou o presidente da CPI, José Eduardo Cardozo (PT). Izar tem até o dia 2 de junho para apresentar sua lista de testemunhas de defesa e até 7 de junho para entregar a defesa por escrito. No mesmo dia, serão ouvidas as testemunhas de defesa.
O vereador, em depoimento, omitiu alguns detalhes da versão que havai apresentado na polícia ao delegado Romeu Tuma Junior, na semana passada. Apesar de afirmar repetidamente na CPI que "não toleraria que um funcionário, dentro ou fora da regional, trabalhasse em campanhas políticas", Izar havia dito na polícia que, certa vez, encontrou o chefe de fiscalização da Lapa Amauri Rippa, acusado de integrar o esquema, no comitê político de Willians José Izar, irmão do vereador e candidato a deputado estadual, "participando da campanha". Nesse momento, o vereador voltou atrás. "Não sei se ele fez campanha. Eu o encontrei por volta das 20 horas, e ele falou que estava de licença ou coisa parecida. E já não era horário de trabalho."
Apesar de ter indicado o assessor Gilmar de Almeida Lima para a regional da Lapa, Izar afirmou desconhecer que ele prestasse serviços eleitorais para Willians, até mesmo durante o horário de serviço, conforme o depoimento de várias testemunhas e do próprio Gilmar.
Izar também não soube explicar o episódio envolvendo o afastamento de Rippa da regional, determinado pelo ex-administrador Osvaldo Cuoghi, e seu posterior retorno, por meio de pedido do vereador. "Um amigo meu disse que o Amauri estava sendo injustiçado. Fui averiguar na regional e não encontrei provas contra ele, aí telefonei e enviei memorando ao secretário das Aministrações Regionais (Alfredo Mario Savelli) exlicando o caso". Izar afirma ter pedido ao secretário nova averiguação. Dias depois, Rippa voltou à regional. Questionado sobre como foi feita a averiguação, o vereador respondeu: "Fui à regional e, por cerca de meia hora, perguntei às pessoas próximas a Rippa se elas sabiam de algum problema, e elas negaram".
Izar também deu versão contrária à da polícia ao explicar suas relações com alguns dos envolvidos no caso. Ele negou conhecer o ambulante José Vital da Rocha, conhecido como Zé do Amendoim. "Não conheço essa pessoa". Minutos depois, quando as perguntas retornaram ao nome do camelô, ele mudou de opinião. "Desculpem, havia me esquecido. Eu conversei com ele no sindicato dos ambulantes uma vez, numa reunião com amigos dele". O ambulante, acusado de participar de um esquema de venda de Termos de Permissão de Uso (TPUs) falsificados a ambulantes, afirmou que o vereador tinha influência na regional da Lapa.
Outro personagem "esquecido" por Izar é José Rafael Barcha
proprietário da serigrafia Brasilk, que afirma ter sido obrigado a fazer a campanha de Willians Izar para obter seu alvará de funcionamento. Barcha afirma ter encontrado José Izar em uma churrascaria, no dia em que seu imóvel foi liberado após a extorsão, junto com Willians. O vereador confirmou esse encontro na polícia, mas hoje disse que "não conhecia" Barcha.
Alguns outros pontos, segundo integrantes da CPI, não foram bem explicados pelo vereador. Um deles foi a questão da utilização de carros emprestados pela concessionária Companhia Metropolitana na campanha de Willians. Izar nega o fato, alegando conhecer o dono da empresa. "É meu amigo e, de vez em quando, emprestava alguns carros para meu uso particular e em trabalho político meu, não em campanha eleitoral".
Após essa declaração, o presidente da CPI, José Eduardo Cardozo, apresentou um documento que teria sido enviado ao assessor Gilmar de Almeida Lima, cobrando a devolução de três carros "que haviam sido cedidos em acordo feito com o vereador José Izar e a Administração Regional da Lapa para campanha eleitoral". Um dos veículos cobrados, segundo documentação, teria sido abastecido em janeiro em um posto de gasolina. Na nota fiscal consta o nome de José Izar.
O vereador irritou-se, disse que desconhecia o fato e que Lima poderia ter feito o empréstimo por conta própria. Izar afirmou várias vezes que o assessor "faltou com a verdade", e acenou, inclusive, com a possibilidade de acioná-lo judicialmente. Ao final do depoimento, Izar se disse "aliviado". "Não há provas concretas de que eu recebi um real sequer, estou com a consciência limpa."
Hoje ainda deve ser ouvida a vereadora Maeli Vergniano (sem partido), acusada de utilizar a Administração Regional de Pirituba para se beneficiar.





