Vereador preso em SP promete renunciar
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 01 de abril de 1999
Marcus Lopes e Marcia Glogowski Agência Estado 
O vereador paulistano Vicente Viscome (sem partido) revelou ontem que vai renunciar ao cargo e deixar a política. Esse não é o meu mundo, disse Viscome, segundo informou o delegado Naief Saad Neto, que preside o inquérito aberto na Divisão de Investigação e Registros Diversos (Dird) sobre o escândalo das propinas nas administrações regionais da cidade de São Paulo. Sua decisão, na prática, acaba com um eventual processo de cassação na Câmara.
Viscome, que se apresentou anteontem à polícia, sentiu-se mal na Dird, durante o depoimento, iniciado às 11 horas. Por volta das 16 horas, quando os policiais e promotores chegavam às questões mais consistentes sobre corrupção, Viscome teve uma crise nervosa: chorou e sentiu-se mal. O depoimento foi suspenso e o médico Oscar Porto foi chamado para atendê-lo. Quando o médico chegou, 45 minutos depois, o pulso de Viscome estava acelerado, mas a pressão era normal.
A crise nervosa ocorreu, segundo o promotor Roberto Porto, quando se lia o terceiro dos oito volumes do inquérito. Mais precisamente o depoimento do coronel da reserva Ivan Márcio Gitahy, que foi seu assessor na Penha e é acusado de chefiar a coleta de propinas na regional.
Atribuo esse choro a uma pressão interna, disse o delegado Romeu Tuma Júnior. É pressão de saber alguma coisa que já foi dita e a pessoa não tem como negar. A partir da crise nervosa, os policiais e promotores do Grupo de Combate e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) acreditam que Viscome deva revelar como funciona o esquema de corrupção. Se ele disser o que sabe, sairá daqui sorrindo, disse Tuma.
Trajando calça e camisa claras, Viscome chegou à Dird às 9 horas, acompanhado pelo delegado-operacional da Corregedoria, Laerte Marzagão. No início do depoimento, declarou desconhecer esquemas de propina na Regional da Penha. Respondeu apenas como funciona o esquema de comando político nas regionais, segundo Saad Neto.
Viscome afirmou que assumiu a Penha por indicação do prefeito Celso Pitta (sem partido) e negou que houvesse algum tipo de negociação. Antes disso, na gestão do ex-prefeito Paulo Maluf, ele detinha o controle da regional de São Miguel Paulista.
O depoimento deveria terminar à noite e pode continuar hoje. Ele tem de explicar as acusações contra ele disse o delegado Saad Neto. Às 18h30, o depoimento foi novamente suspenso para o médico medir a pressão. Viscome chorou de novo ao saber que a mulher e os filhos queriam vê-lo.
Por volta das 11 horas, o relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Fiscais, na Câmara, vereador Milton Leite (PMDB) chegou à Dird. Os vereadores esperam que Viscome vá depor na CPI na próxima semana. Leite evitou comentar a questão do mandato do vereador. Queremos ouvi-lo primeiro.
A assessora e namorada de Viscome, Tânia de Paula, deve ser intimada a comparecer à Dird para uma acareação com o vereador. Tânia chegou de Porto Seguro (BA), aonde foi descansar alguns dias. O promotor José Carlos Blat comentou a alegação da defesa de Viscome de que Tânia teria sido coagida a confessar sua participação e a do vereador no esquema de propina da Regional da Penha. Blat considerou essa alegação absurda, desmedida e irresponsável. Segundo o promotor, qualquer ilação em relação ao trabalho da força-tarefa que investiga o caso será considerada caluniosa.
O delegado Saad Neto também repudiou a colocação da defesa de Viscome. Os depoimentos de Tânia são coerentes, o que mostra que ela falava espontaneamente, disse o delegado. Houve coerência nos seus depoimentos tanto à polícia e ao Ministério Público quanto na Câmara.
Viscome está sob prisão temporária até amanhã e o Ministério Público deve pedir que ela seja prorrogada. Embora não tenha diploma universitário, fica numa cela especial, por ser vereador. Mas ele tem esperança de sair antes e manifestou isso aos delegados e promotores: Quero passar a Páscoa com meus filhos.


