Caracas, 16 (AE-AP) - As esperanças de mudança e uma vida melhor, que os venezuelanos depositaram no presidente Hugo Chávez, transformaram-se agora em um símbolo concreto - a nova constituição.
A estratégia de comunicação empregada pelo mandatário para vincular seus objetivos de uma "revolução pacífica" à aprovação do projeto deu resultado.
Agora surge a grande questão: Poderá Chávez tirar o país da fossa aonde foi levado pelas cúpulas partidárias, como disse ele uma ou outra vez?
Apesar de os venezuelanos terem aprovado ontem por maioria, em um referendo, a instituição de uma nova Carta Magna, mais de 54% dos eleitores abstiveram-se de votar.
"Alguns venezuelanos acreditam que vão começar a comer melhor e viver melhor um dia após a entrada em vigor da nova constituição", disse o analista político Fausto Massó. "Mas a verdade é que a maioria começa a se impacientar e a abstenção refletida hoje deve servir de advertência a Chávez."
Chávez diminuiu a importância do elevado índice de abstenção e disse ser positivo que "mais de 2 milhões de venezuelanos" a aprovaram, principalmente se comparada à anterior, redigida e aprovada por apenas uma centena de parlamentares em 1961.
O presidente crê que a nova constituição mudará totalmente o rumo político, econômico e social do país e dará passo ao que chamou de a nova República Bolivariana da Venezuela.
O Conselho Nacional Eleitoral, máximo orgão eleitoral do país, informou que o "Sim" conseguiu mais de 70% dos votos inicialmente apurados, frente a 29% de eleitores contrários.
O texto constitucional aprovado muda totalmente o rosto do país: desde seu nome até a reorganização do Estado, permitindo a reeleição presidencial e a eliminação do Senado.
As funções legislativas do Congresso serão assumidas a partir de hoje pela Assembléia Constituinte até 3 de fevereiro de 2000, quando será nomeada uma comissão especial, apelidada de "Congressinho", que funcionará até que sejam eleitos os novos membros do Congresso.
Isaías Rodríguez, primeiro vice-presidente do foro constituinte, disse que uma das primeiras medidas da assembléia nos próximos dias será a reestruturação do poder judiciário, apontado como um dos mais corruptos do mundo. A diretoria da assembléia "não definiu" até agora como será manejado o poder judiciário.
O apoio massivo a favor da reestruturação do aparato político e judicial da Venezuela deveu-se em parte ao rechaço do povo ao que considera um sistema democrático corrupto que negou seus direitos fundamentais, como saúde, educação, segurança e moradia
apesar de a Venezuela ter uma enorme indústria petrolífera que gera divisas.
Na Venezuela, dona das maiores reservas de petróleo no hemisfério ocidental, mais da metade da população vive na pobreza e cerca de 1.500.000 de pessoas estão desempregadas.
Chávez expressou ontem à noite, em cadeia de rádio e televisão
que "este é um dia glorioso para a Venezuela. Nasce a nova República da Venezuela. Não por imposição, mas com o consenso da maioria".
Para Josefina Ledezma, uma secretária desempregada de 35 anos, o futuro do país está na nova constituição. "Espero muitas coisas boas desta constituição. Só Chávez pode tirar a Venezuela deste atoleiro para que meus filhos e eu possamos sair da pobreza, tenhamos emprego e todos possamos viver melhor", disse.
Estas expectativas não parecem ser muito ambiciosas se for levado em conta que Chávez, ex-pára-quedista do exército líder de um fracassado golpe de estado em 1992, é considerado um "salvador" por milhões de pessoas.
A maioria acredita que o presidente castigará a corrupção, eliminará a miséria e fará com que o país volte aos dias em que seus moradores tinham a maior renda per capita da América Latina
em meados da década de 70, com o "boom" do petróleo.

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