Caracas, 24 (AE-AP) - Para muitos, trata-se do primeiro passo para a vitória de uma revolução legalista, destinada a devolver o poder ao povo venezuelano. Para outros, a Assembléia Constituinte nada mais é do que um veículo para dar ao presidente Hugo Chávez mais poder para abolir as instituições democráticas naquela que tem sido a mais estável democracia da América Latina.
Os críticos de Chávez têm motivos para preocupar-se: ele chegou ao poder na eleição de dezembro montado numa plataforma recheada de propostas populistas e nos ombros da massa irada com o sistema vigente e sedenta de reformas profundas.
Os antecedentes de Chávez também não o recomendam como paladino da democracia. Em fevereiro de 1992, quando era tenente-coronel de uma brigada de pára-quedistas do Exército, liderou uma tentativa de golpe contra o então presidente, Carlos Andrés Pérez. A revolta custou-lhe dois anos de prisão, mas, ainda no cárcere, ele prometia levar adiante sua guerra contra os políticos tradicionais e o establishment do país.
Essa mudança passa, de acordo com seu discurso, pela redação de uma nova Constituição, mais permeável às reformas econômicas necessárias para fazer frente à uma crise que causou o empobrecimento sem precedentes do país. Após uma batalha parlamentar e jurídica de seis meses - na qual parlamentares da oposição tentaram de todas as formas bloquear a iniciativa do presidente -, Chávez testemunhará amanhã (25) a realização da eleição que escolherá 128 deputados constituintes.
Outros três, representantes de povos indígenas venezuelanos, já foram escolhidos em eleições separadas, realizadas há uma semana.
A coligação governista Pólo Patriótico - que reúne o Movimento Bolivariano 2000, de Chávez, e meia dúzia de pequenos partidos nacionalistas e esquerdistas - tem grandes possibilidades de conseguir a maioria na Assembléia Constituinte. Apesar da forte recessão econômica, da crescente taxa de desemprego e da deterioração das condições de vida da população, o presidente vem mantendo índices de aprovação superiores a 75%.
Chávez não hesitou em tomar para si a liderança da campanha para as eleições deste domingo. Foi advertido pelo Conselho Nacional Eleitoral, equivalente ao Tribunal Superior Eleitoral, para que não interferisse no processo de escolha, mas não desistiu da campanha.
No último dia de comício, quinta-feira, discursou do balcão do Palácio de Miraflores, sede do governo, em Caracas, pedindo votos para seus candidatos. "O povo é Chávez e Chávez é o povo, é isso o que eles (seus adversários políticos) não entendem e é essa a causa de suas tantas derrotas", proclamou. "Sou um presidente constituinte e não um presidente constituído; o poder constituído resiste a morrer, mas vai morrer, e nós seremos seus coveiros."
Sem poupar nenhum adversário, Chávez acusa os dois partidos mais tradicionais do país - a Ação Democrática e o Comitê de Organização Política Eleitoral Independiente (Copei) -, que se alternaram no poder nos últimos 35 anos e perderam espaço com a última eleição, de empobrecer a Venezuela, apesar do fantástico crescimento econômico registrado durante a crise mundial de petróleo. O país é o único ocidental membro da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).
Na visão de Chávez, os "donos do poder" da época apropriaram-se da riqueza proporcionada pelos lucros da produção petrolífera, mas têm repassado para a população o prejuízo causado pela queda do preço do produto no mercado internacional. Como solução, ele pretende rever a posição do país na Opep e considerar se deve ou não manter a Venezuela como sócia de um dos lobbies mais poderosos do planeta.
Caso a vitória de seu grupo seja confirmada nas urnas amanhã, é muito provável que a Venezuela não seja a mesma quando os trabalhos da constituinte estiverem encerrados, daqui a seis meses. Literalmente: Chávez planeja mudar o nome do país para República Bolivariana da Venezuela.

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