Venezuela dá início a doloroso processo de reconstrução
LA GUAIRA, Venezuela, 23 (AE-AP) - A Venezuela praticamente encerrou os trabalhos de resgate e lançou-se hoje (23) num longo trabalho de reconstrução de sua costa caribenha, após os mais mortíferos deslizamentos e inundações de sua história. "Estamos ativando uma nova etapa", anunciou o presidente Hugo Chávez.
Uma semana depois da tragédia que matou entre 5 mil e 30 mil pessoas e deixou pelo menos 140 mil desabrigados, o ministro da Infra-Estrutura, Julio Montes, informou que o governo está destinando imediatamente o equivalente a US$ 778 milhões para para reparar estradas, linhas de energia e redes de água numa faixa de 100 quilômetros do Estado de Vargas, coberta por um mar de lama e destroços.
"Estamos falando sobre ter 500 trilhões de bolívares disponíveis neste momento para enfrentar os problemas criados por essa tragédia", disse Montes.
O governo estimou que a reconstrução de toda a área devastada levará uma década e estimou os custos totais em bilhões de dólares. A Assembléia-Geral da ONU pediu que a comunidade internacional dê uma generosa ajuda à Venezuela. A Espanha já anunciou um empréstimo de US$ 100 milhões e a União Européia, uma ajuda extra de US$ 3,2 milhões. Os EUA enviaram quatro equipamentos purificadores de água. O governo venezuelano informou que já recebeu US$ 14 milhões de ajuda internacional e prometeu usá-los com total transparência.
O trabalho de reconstrução de estradas foi iniciado hoje. O governo determinou a criação de brigadas militares e civis para construir um canal de acesso ao longo de Vargas, para permitir a chegada de ajuda às áreas isoladas. A retirada de desabrigados no Estado já está quase completa. Segundo o Exército, falta transferir apenas 2 mil pessoas para alojamentos de emergência. Chávez prometeu dar aos desabrigados um Natal "decente", com uma ceia com os pratos típicos do país.
Os perigos dos trabalhos de resgate e envio de suprimentos às áreas isoladas foram evidenciados quarta-feira, quando um helicóptero que levava sobreviventes caiu. Oito pessoas, incluindo três crianças, morreram. Foi o quinto incidente durante as tarefas de socorro em Vargas, mas o primeiro com vítimas.
Outro helicóptero caiu depois ao bater em cabos de eletricidade quando ia pousar, matando o coronel Julio César Villegas. O aparelho tentava alcançar áreas que não sofreram grandes danos, mas ficaram isoladas porque as vias de acesso foram obstruídas. Estima-se que haja 300 mil pessoas isoladas em dezenas de povoados costeiros.
"À medida que se recomponham as vias de comunicação, vamos estabelecer uma base de apoio logístico avançado", disse o general Freddy Presutto, chefe do comando logístico do Exército. "À medida que formos avançando (nas vias de acesso), levaremos a comida, a água e os remédios para os que estão isolados."
Outra preocupação das autoridades é com os saques. Mais de 6 mil soldados foram deslocados nas cidades fantasmas de Vargas, onde edifícios sobressaem de uma montanha de destroços e lama da altura da cabeça, num cenário de desolação total. As tropas que patrulham as ruínas e também verificam os edifícios para ver se há sobreviventes já prenderam vários saqueadores, e há notícias de mulheres sendo violentadas. Grupos de vigilantes civis com bastões de beisebol e, em alguns casos, armas de fogo ajudam no patrulhamento, batendo panelas à noite como alerta em caso de perigo.





