Venezuela celebra Natal em meio a luto nacional
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sexta-feira, 24 de dezembro de 1999
Por Fabiola Sánchez 
Caracas, 24 (AE-AP) - Voluntários e autoridades trabalhavam com afinco hoje (24) repartindo alimentos e brinquedos entre flagelados, numa tentativa de celebrar o Natal em meio à pior tragédia da história recente da Venezuela.
"Aqui não há Natal", comentou Maryori Romero, 30 anos. Acompanhada de seus três filhos, Romero estava na fila do aeroporto de La Guaira, cerca de 25 km ao norte da capital, para tentar chegar a ilhas do norte do país e reunir-se com seu marido.
"Todos meus filhos estão enfermos. Este está com gripe, o outro tem febre. Não nos sobrou nada", afirmou.
Milhares de famílias perderam tudo nas devastadoras chuvas e deslizamentos da semana passada na costa central da Venezuela, especialmente na região do estado de Vargas, em seus 100 km de extensão.
Nas alagadas ruas de La Guaira e bairros próximos, a maioria dos rostos reflete a tristeza trazida pela recente tragédia. "Para o estado de Vargas, o Natal acabou", disse Vladimir Malavé, 16 anos.
Autoridades estimam que existem cerca de 140 mil flagelados e que dezenas de milhares morreram afogados nas enchentes e sob toneladas de barro e pedra.
Oficiais do centro meteorológico da Força Aérea previram hoje que chuvas intermitentes cairão nas próximas 72 horas na capital e na costa central.
"Temos que estar muito atentos, com o solo saturado de água, temos que tomar todas as precauções", disse à AP José Ramón Pereira, chefe do centro de informação meteorológica da aviação venezuelana.
O ministro da Defesa, Raúl Salazar, considerou que um dos melhores presentes que a população afetada pode receber neste Natal é a restituição do abastecimento de água por parte da empresa estatal, Hidrocapital.
"Estamos lutando com a Hidrocapital na região ocidental de La Guaira para restituir a água. Esse seria o melhor presente de Natal porque é uma necessidade para as condições de saúde", disse Salazar a jornalistas em La Guaira.
O ministro enviou uma mensagem de agradecimento aos militares, voluntários e integrantes das equipes de resgate por seu trabalho dos últimos nove dias e por "terem tornado um pouco menos pesada a carga que temos neste 24. Que Deus os abençoe".
Os sobreviventes, que foram levados a diferentes albergues desta capital e de pelo menos outras sete cidades venezuelanas, receberam a promessa do presidente Hugo Chávez de ter pelo menos um lugar digno para passar a noite de Natal.
Gabriel Cuberos, um universitário de 21 anos, é um voluntário que decidiu hoje deixar de lado sua família e unir-se a cerca de 780 flagelados alojados provisoriamente numa base militar em Caracas.
"Nós os voluntários ficaremos aqui hoje. Muitos de nós temos passado muito tempo com a família. Graças a Deus nós temos uma família com vida e com saúde. Vale a pena sacrificar um Natal para dar um presente a esta gente", acrescentou.
Cuberos explicou que as atividades de hoje "são fundamentais, especialmente para as crianças". Entre os programas preparados para os flagelados estão apresentações de palhaços, grupos de teatro e musicais. Fábricas de brinquedos doaram centenas de presentes para serem divididos entre as crianças.
Yurimar Rodríguez, uma menina de 11 anos, apesar de ter perdido sua casa num bairro de Caracas, não perde a expectativa de celebrar o Natal em seu refúgio na base militar.
"Não pedi nada ao Menino Jesus", comentou a menina envergonhada e que se tornou vigia da porta do banheiro das mulheres no abrigo. "Espero que Ele me traga qualquer coisa".


