Vendi pele de tigre para turistas
Vendi pele de tigre para turistas
Valmir Denardin
Ney de SouzaO pioneiro Alfredo Brol relembra: O meu pai gostava de caçar e aqui era só sertão. Então ele quis vir para cá, em 1936Aos 79 anos, o gaúcho Alfredo Brol é um dos mais antigos pioneiros de Foz do Iguaçu. Primeiro dos oito filhos de uma família de descendentes de italianos, Brol chegou em 1936, quando o município completava 22 anos de emancipação.
Lúcido e alegre, na seguinte entrevista à Folha, o pioneiro relembra fatos marcantes da aventura de se viver em uma cidade formada por meia dúzia de casas, cercada de onças e onde os alimentos industrializados demoravam até 40 dias para chegar.
Folha - Há quanto tempo o senhor mora em Foz do Iguaçu?
Alfredo Brol - Desde 1936. Cheguei no Dia de São João (24 de junho).
Folha - Por que sua família decidiu mudar-se para o Paraná?
Brol - Meu pai era colono. Tinha um senhor, chamado Osvaldo Matte, que já conhecia aqui e falou para o meu pai vir. O meu pai gostava de caçar e aqui era só sertão. Então ele quis vir para cá. Uma parte da família veio na frente e o resto um ano depois.
Folha - Como foi a mudança?
Brol - Viemos com uma tropa de burros, a família do meu pai e outras duas mudanças. Nem lembro quanto tempo durou a viagem, mas não esqueço que levamos 45 dias de Joinville (SC) até aqui. Era só sertão. Ficamos 20 dias presos por causa de uma enchente. Tivemos que derrubar pinheiros, atravessá-los no rio para passar a mudança sobre as toras, como se fosse uma espécie de ponte. A tropa passava a nado. Por causa dessa enchente, nossa comida acabou. A gente era pobre e o dinheirinho mal deu para chegar aqui.
Folha - Qual foi o primeiro lugar em Foz que o senhor conheceu?
Brol - Chegamos no Rio Iguaçu, acima das Cataratas. Essa foi a primeira coisa que vimos. Atravessamos o Iguaçu de canoa. A tropa voltou para o Sul a partir dali.
Folha - Ficou impressionado com as Cataratas?
Brol - Não senti grande coisa, porque no Rio Grande do Sul tinha muita montanha e mato. Só a água fazia a diferença.
Folha - Em que lugares de Foz sua família morou?
Brol - Ficamos um ano perto do Rio São João (na área onde hoje é o Parque Nacional do Iguaçu), numa casa velha. Depois mudamos para outra casa, lá mesmo. Depois eu casei e vim morar na cidade. Minha família não tinha quase nada, era muito pobre. A comida era difícil até de comprar, não tinha quase comércio.
Folha - Como era Foz do Iguaçu quando o senhor chegou aqui?
Brol - Era só mato. Tinha duas casas de material (alvenaria) - a igreja e uma outra. O resto era só casinha pequena de madeira. Aqui era só mato (e aponta a região da Avenida General Meira, onde mora, hoje bastante povoada). A maioria na cidade era paraguaios. Como não existia a Ponte da Amizade (inaugurada em 1965), eles atravessavam o Rio Paraná de canoa.
Folha - Qual era o meio de vida da sua família?
Brol - Roçávamos a estrada das Cataratas uma vez por ano, para os turistas passarem. Esse era o dinheiro que entrava. Os turistas vinham de avião e desciam no aeroporto onde hoje é o Batalhão (do Exército). Para comer, a gente caçava muito. Tinha muito bicho. A gente vivia só com carne de caça.
Folha - Que tipo de caça era comum?
Brol - De tudo. Tenho fotografias dos tigres que matei. Caça para comer tinha veado, anta, tatu, paca, cotia. Peixe, então, era só ir no Rio Iguaçu, jogar o anzol e puxar. Mas a vida era sofrida. Tinha muito mosquito.
Folha - Em que tipo de atividade o senhor trabalhou?
Brol - Fui um homem muito lutador e fiz de tudo. Tive carroça grande, que era puxada por oito burros. Puxava madeira, areia, pedra e outras coisas. Fui eu quem puxou as pedras da estrada das Cataratas (há alguns anos essa pavimentação foi trocada por asfalto). Depois tive casa de comércio. Daí comprei caminhão, um F-6, da Ford, um dos melhores caminhões que tinha. Durante cinco ou seis anos, viajei para Ponta Grossa para trazer mantimentos para as vendas daqui. Era a cidade mais perto para se comprar mantimentos. A estrada era ruim e, quando chovia, a viagem chegava a levar 40 dias. Quando chegava um caminhão de fora aqui era uma alegria. Depois tive uma empresa de transportes, uma loja de tecidos, posto de gasolina e hotel. Trabalhei 11 anos no Paraguai (em Santa Teresa, a 150 quilômetros da fronteira), administrando fazendas de gado. Morei seis anos fora, em Guarapuava, Ponta Grossa e Curitiba.
Folha - Qual é a sua melhor lembrança daquela época?
Brol - Gostei mais do tempo em que trabalhei com carroça.
Folha - Muita gente conta que o senhor matou muita onça...
Brol - Matei cinco ou seis tigres, tão grandes que dois homens não poderiam erguer do chão. Me apurei muito. Quase que entrei nos dentes de alguns deles.
Folha - O que o senhor fazia com os tigres?
Brol - Tirava a pele e, às vezes, as vendia para os turistas. Com isso, ganhava algum dinheirinho.
Folha - E vinham muitos turistas?
Brol - De vez em quando, vinham aviões lotados de turistas. A maioria dos turistas ia a pé da cidade até as Cataratas.
Folha - O que o senhor acha da Foz do Iguaçu de hoje?
Brol - É uma cidade bem grande.
Folha - Prefere o tempo de hoje ou a aquela época?
Brol - Aquela época era mais sofrido, mas também mais divertido. Não tinha as tristezas que tem hoje: miséria, violência. Aquele tempo era mais tranquilo.PERFIL
Nome:
Alfredo Brol
Idade:
79 anos
Onde nasceu:
Lageado (RS)
Quando chegou em Foz:
Em 1936, aos 18 anos
Estado civil:
Casado com Orfila Mezzomo, 73 anos; tem 4 filhos, 9 netos e 1 bisneto





