Venda de supérfluos caiu 10% em fevereiro
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sábado, 13 de março de 1999
Por Denize Bacoccina 
São Paulo, 14 (AE) - Os consumidores das classes C e D, que com a estabilidade de preços passaram a incluir itens como iogurtes, cereais matinais, achocolatados, pratos prontos e fraldas descartáveis no carrinho do supermercado, já começaram a cortar esses produtos da sua lista de compras. Os fabricantes evitam falar sobre o assunto, mas os supermercados confirmam uma queda de até 10% na venda de itens considerados supérfluos desde fevereiro.
Com o orçamento já apertado, consumidores têm de cortar esses itens para bancar o aumento de preços dos produtos básicos
depois da desvalorização do real. "A população de renda menor, que teve acesso a produtos novos depois do Plano Real agora está deixando de comprar", diz o presidente da Associação Brasileira dos Supermercados (Abras), José Humberto Pires de Araújo. Entre os consumidores de classe média alta para cima, esse corte ainda não foi sentido. "Nessa faixa de renda o corte não é no supermercado", diz.
Uma pesquisa realizada a cada dois meses nos supermercados pela AC Nielsen mostra um crescimento expressivo em várias categorias de produtos nos últimos quatro anos. A Nielsen ainda não tem os resultados das vendas no primeiro bimestre deste ano, mas o presidente da Abras confirma que a queda atingiu justamente os produtos cuja venda cresceu mais. Na média, o faturamento dos supermercados cresceu apenas 1% em janeiro. O resultado de fevereiro ainda não foi divulgado, mas a expectativa não é boa. "Se empatar com o do ano passado já está muito bom", diz o presidente da Abras.
Alguns desses itens já tiveram o seu pico no meio do ano passado e chegaram ao fim do ano com queda. É o caso das bebidas esportivas, os chamados isotônicos, como Gatorade. A venda do produto acumulava um crescimento de 787% no bimestre fevereiro/março do ano passado em relação ao volume de maio de 1994 e fechou o ano com aumento acumulado de 500%. A venda de carne congelada cresceu 265% desde maio de 94, enquanto o consumo de cereais matinais, tipo corn flakes, cresceu 228% entre maio de 94 e novembro do ano passado.
Símbolo - O iogurte, símbolo do ganho de poder aquisitivo com a queda da inflação, em 94, também já teve seu pico e agora enfrenta vendas em baixa. No fim do ano, as vendas eram 189% maiores do que em maio de 94, mas o pico foi em fevereiro e março, quando o incremento era de 206%.
Em alguns produtos, não houve redução na quantidade de mercadorias, mas no volume financeiro. O consumidor troca um produto mais sofisticado por outro mais barato. Isso acontece, segundo Araújo, no segmento de refrigerantes ou de biscoitos finos. O consumidor troca de marca para tentar colocar a mesma quantidade de produto no carrinho. Em vez de comprar um prato pronto, leva o ingrediente para preparar o prato em casa.
Nos pequenos supermercados, a venda de supérfluos também foi sentida. "Os produtos mais sofisticados, tanto de alimentos como de higiene e limpeza estão vendendo menos" diz Wilson Tanaka, presidente do Sincovaga, que reúne os pequenos supermercados. Ele diz que o consumidor não deixa de comprar os produtos que precisa, mas quando o orçamento aperta troca por marcas mais baratas, mesmo com prejuízo de qualidade.
Num primeiro momento, isso faz com que a inflação efetiva no bolso do consumidor seja inferior à medida pelos institutos de pesquisa, por causa da substituição de marca. "Mas isso já está mudando porque os aumentos estão se generalizando", diz Tanaka. Uma estratégia que vem sendo adotada pelos varejistas, tanto nas grandes redes como as pequenas empresas, é a promoção de mercadorias de marcas mais baratas.
A queda na venda de produtos mais sofisticados tem até uma contrapartida no aumento das vendas dos produtos básicos. O problema é que esses produtos são menos rentáveis, tanto para os fabricantes como para os varejistas. Tanaka cita o exemplo do frango temperado, cujo preço subiu mais do que o frango in natura. "O resultado é que a venda caiu", diz. O presidente da Associação Paulista dos Supermercados (Apas), Omar Assaf, acha que a queda de vendas pode se acentuar ainda mais. "Os importados já estão parando nas prateleiras, e iogurtes e bebidas devem ter queda maior."


