A droga faz parte da vida cotidiana em Tabatinga, localidade brasileira fronteiriça com Colômbia e Peru, cujos habitantes falam sem tabu do tráfico de cocaína e vêem no ‘‘negócio’’ um meio rápido de melhorar a vida no meio da selva amazônica.
Segundo o pároco local, Valdemir Ribeiro, pelo menos 40% das famílias desta cidade de 35.000 habitantes têm alguma relação com a droga. Mas a cifra parece ser pequena quando, depois de alguns minutos de conversa em um bar qualquer, as pessoas começam a falar tranquilamente de seu vizinho traficante, de que antes vendiam droga ou de onde se pode comprar boa cocaína.
‘‘A droga está por toda a parte. O difícil é encontrar alguém que não esteja envolvido’’, afirmam.
Para o vigário, nascido e criado na cidade, ‘‘é preferível que ninguém na Igreja fale muito do problema por sua própria segurança’’. Ele afirma: ‘‘Todo mundo se conhece, sabe quem é quem (...) Nos preocupa muito a violência. Este ano morreram 30 pessoas baleadas no centro da cidade, quase na porta da Igreja.’’
No hospital militar, o único centro médico de Tabatinga, chegam toda noite várias pessoas com ferimentos à bala e arma branca, muitas delas colombianas e peruanas. ‘‘Nunca dizem como foi, quem as feriu’’, explica um dos médicos do hospital que pediu para não ser identificado.
Trabalhar se torna uma tarefa a cada dia mais perigosa para indianistas, ecologistas e organizações humanitárias que devem se deslocar a regiões isoladas onde abundam as pessoas armadas, pescadores a soldo de traficantes ou embarcações suspeitas que passam por cima de qualquer controle que surja em sua passagem.
É curioso que numa cidade onde não há indústria e a população vive da pesca todo mundo tem sua motocicleta. No total, há mais de 6.000 e a mais barata custa cerca de US$ 1.300. A soma é difícil de conseguir se se leva em conta que um quilo de pescado é vendido no mercado a um real.
‘‘Custa ganhar o dinheiro, manter a família e depois todo mundo compra sua moto, paga a gasolina, bebe cerveja e janta nos restaurantes. É muito suspeito’’, comentam chefes militares.
Na realidade, parece que a droga está em toda parte e em nenhuma. Quem quiser cocaína só precisa ficar atento a alguém se aproximar e oferecê-la: pode ser o taxista, a mulher da mesa vizinha no restaurante ou inclusive os presos por tráfico.
‘‘Diga-me quanto quer e trago a Tabatinga’’, diz Roberto, um peruano que cumpre uma pena de três anos por transportar sete quilos de cocaína em direção ao Suriname.
Por tudo isto, os moradores de Tabatinga riem ao falar da Operação Cobra da Polícia Federal para frear o tráfico ou do aumento do controle do exército brasileiro na fronteira com a Colômbia.
Segundo os vizinhos, a polícia não tem poder de interceptar as ‘‘toneladas de cocaína que cruzam a região’’ quando nem sequer controla a entrada de colombianos e peruanos em Tabatinga, onde já superam 20% da população, a maior parte deles em situação ilegal.
Há algum tempo, nesta cidade a droga já não se avalia por gramas e o preço de cada quilo de cocaína gira em torno de US$ 500. No aeroporto, por onde supostamente saem as maiores quantidades, as maletas são revistadas superficialmente e as bolsas de mão nem sequer são registradas.
A necessidade faz com que, com maior ou menor astúcia, índios, pescadores ou garimpeiros se arrisquem por US$ 100 a transportar dois ou três quilos de cocaína até Manaus, capital da Amazônia brasileira. O mais triste é que alguns deles, atualmente presos, nem sequer sabiam o valor do pó branco que levavam escondido entre seus pertences. (Agência Estado)