São Paulo, 14 (AE)- O resultado do leilão de privatização da Comgás tende a constituir uma reserva de otimismo, que servirá para amortecer eventual frustração do mercado com a decisão de corte de juro a ser tomada pelo Comitê de Política Monetária (Copom). O Banco Central tem permitido que o mercado alimente a expectativa de que o Copom derrubará vigorosamente a taxa de juro e se isso não ocorrer ninguém arrisca prever as consequências, levando em conta a euforia que se alastrou nas últimas duas semanas. A Comgás pode ajudar a conter um revés do mercado, caso o Copom adote uma postura mais conservadora do que a esperada.
Motivo: a privatização da Comgás significa mais dólares e mais investimentos em infra-estrutura. O Brasil precisa das duas coisas. Analistas setoriais e de bolsa trabalham com a possibilidade de a distribuidora de gás do estado de São Paulo ser vendida com ágio de 30% a 40 % sobre o preço mínimo de R$ 753,3 milhões. Se esta expectativa for confirmada, o País estará acolhendo mais dólares do que o previsto, considerando o fato de que apenas grandes companhias estrangeiras compõem os quatro consórcios que participarão do leilão nesta manhã. No mercado, operadores de renda fixa e de câmbio podem interpretar um leilão bem sucedido como sinal verde para elevar suas apostas na perspectiva de ingresso ainda mais firme de investimento externo direto no Brasil, minimizando a necessidade de o Banco Central sustentar juros muito elevados para preservar um elevado cupom cambial para atrair capitais de curto prazo; e de queda mais acentuada do juro nominal.
Há cerca de dez dias, o presidente do BC, Armínio Fraga, aplicou o segundo corte no juro desde a extinção da TBC e Tban em 4 de março e reduziu o custo primário do dinheiro a 39,5% ao ano. Ontem à tarde, o mercado ainda sustentava projeções para o novo Over/Selic entre 34% e 36% e a manutenção do "viés de baixa", acenando com a possibilidade de Fraga voltar a promover novos cortes no juro overnight antes de 19 de maio - dia reservado à próxima reunião do Copom.
O reposicionamento dos bancos no mercado futuro de juros e no leilão de títulos prefixados colocados à venda pelo Tesouro sugere, porém, que o corte do custo do dinheiro no País poderá ser mais acelerado do que se esperava no início de março, quando o BC puxou o Over/Selic a 45%. No futuro de DI, o mercado derrubou o juro efetivo abaixo de 30% a partir de maio e no mercado aberto as LTNs de 56 dias foram vendidas com remuneração de 31,5%. Como há convicção dos operadores de que as autoridades monetárias não pretendem impor perdas às instituições que "compraram" sua disposição de administrar a moeda e a dívida pública com papéis prefixados, a única expectativa possível de ser acalentada - a partir do resultado do leilão de ontem - é a de que o Copom promoverá forte redução do juro que corresponde ao custo de financiamento dos papéis públicos.
O resultado do leilão do Te souro chegou, inclusive, a patrocinar uma rápida revisão das projeções para o juro que estará em vigor amanhã, e alguns analistas passaram a considerar a chance da taxa declinar de 39,5% a 32% ao ano. Esta projeção - altamente favorável para as contas públicas uma vez que mais da metade da dívida mobiliária é indexada ao juro overnight - não prosperou por envolver outra expectativa considerada de alto risco: a de repatriação do capital especulativo que ingressou no Brasil nas últimas semanas. O mercado não despreza a possibilidade de debandada de capital, quando tornar-se evidente que a fase de grandes ganhos já passou. Há um mês, lembram operadores, cada dólar poderia ser trocado por mais de R$ 1,90 e o juro superava 40% ao ano. Ontem, cada dólar poderia ser trocado por R$ 1,66 e a remuneração do título do Tesouro caiu abaixo de 32%.

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