Velhos de Hong Kong perdem sua posição à medida que as tradições mudam
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quarta-feira, 13 de outubro de 1999
Por Marcos Calo Medina 
Hong Kong (AE-AP) - Michael Wu cuida como se fosse um tesouro de seu álbum com as fotografias de seus amigos que o visitam todos os meses. Nenhuma das fotos é de sua esposa, dos seus 10 filhos ou dos seus 11 netos. "Eu não os vejo há seis meses", diz Wu, com um olhar abandonado sob os óculos enevoados. Como muitos de sua geração, Wu foi colocado de lado pelo dínamo financeiro de uma cidade cujo sucesso rápido e selvagem ele ajudou a construir.
Mas, enquanto Hong Kong cresceu de um paraíso para os ousados migrantes chineses e empreendedores colonialistas britânicos para a cidade que é hoje, parte da estrutura de sua tradicional sociedade chinesa, um forte respeito e senso de responsabilidade em relação aos mais velhos, apresenta sinais de dissolução.
"As crianças costumavam sentir-se culpadas em mandar seus pais para asilos para velhos. Eles diziam que haviam falhado em suas obrigações filiais, mas isso não acontece mais"
diz Nelson Chow, presidente do departamento de serviço social da Universidade de Hong Kong.
Cerca de 900 mil dos 6.8 milhões de habitantes de Hong Kong têm mais de 60 anos, diz Chow. Em 2015, este número será superior a 1.5 milhão. A maioria dessas pessoas fugiu da China comunista nos anos 50 e esperavam que seus filhos agissem de acordo com os valores tradicionais chineses. A responsabilidade pelos idosos significava que os filhos deveriam manter seus pais em casa com eles, mesmo após formarem suas próprias famílias.
Mas o número de idosos com mais de 60 anos cresceu de 7% da população urbana há 20 anos para quase 15%, um aumento que demoraria quase meio século para acontecer em diversos países, de acordo com Chow. A unidade familiar tem sofrido sob a pressão
de tal crescimento demográfico, e "já não é tão forte", diz Chow.
Funcionários do governo e estudiosos estão sendo fortemente pressionados para encontrar meios de suprir as necessidades de pessoas como Wu e das demais 240 de sua idade que estão no mesmo asilo. No momento, menos de 4%, ou seja, 36 mil dos idosos de Hong Kong tem acesso a tais asilos.
Acadêmicos dizem que o desespero que muitos deles sentem tem gerado um fenômeno preocupante: o suicídio de idosos. Paul Yip, um estatístico da Universidade de Hong Kong, diz que "o desencontro de expectativas" e a falta de oportunidades estão levando mais pessoas acima de 60 a engolir veneno, saltar para a morte ou a enforcar-se. De acordo com a última estatística governamental, das 640 vítimas de suicídio registradas em 1996, quase um terço tinha mais de 60 anos, a maior proporção mundial, atrás apenas dos dados da China rural e de Cingapura.
"No Ocidente, os pais esperam ver seus filhos na Páscoa
no Dia de Ação de Graças e no Natal", diz Yip. Mas não espera-se que apareçam todo domingo para o dim sum", uma refeição tradicional chinesa com fumegantes bolinhos e outras pequenas delícias.
Apesar do governo gastar quase 20 milhões de dólares de Hong Kong (US$ 2,6 milhões) todos os anos com os idosos, mais dinheiro será necessário para os 10 mil que não têm lugar para ir, conta Chow.
Mas Elisa Leung, diretora-assistente de bem-estar social
diz que gastar mais dinheiro com os 334 asilos com licença do governo não supre necessariamente a questão das necessidades dos idosos em longo prazo. O governo de Hong Kong desembolsou 11 milhões (US$ 1,41 milhões) no início deste ano num projeto de três anos para manter os idosos em suas comunidades, se não em suas próprias famílias, ao levar cuidados médicos em suas casas. "Se a mãe e o pai podem ficar em casa com os cuidados médicos adequados, eles não deveriam ser mandados embora", diz Leung. Ela também acha que a idade de 65 anos para aposentadoria está se tornando irrelevante como tentativa de dar aos idosos mais opções para viverem sozinhos.
Esta não é uma opção para Michael Wu. Agora, aos 76, suas melhores memórias são as da Segunda Guerra Mundial, quando trabalhou como tradutor para o Alto Comando Britânico na China e como intérprete para os pilotos voluntários americanos dos Tigres Voadores no sul da China.
Ele tem diabetes, hipertensão e mal de Parkinson, e vive com mais sete pessoas num dormitório com um forte cheiro de urina e remédios. "Nunca viva com seus filhos. Haverá sempre pontos de vista diferentes", diz Wu a um visitante enquanto folheia seu álbum de fotografias. "Mas quando você volta para me visitar?".


