Vegetarianismo é solução para fome mundial, diz socióloga
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terça-feira, 27 de junho de 2006
Flora Guedes<br> Equipe da Folha 
Curitiba- Abdicar de comer carne por compaixão a outros seres vivos pode soar um tanto sentimentalista para uma sociedade que tem esse hábito alimentar arraigado culturalmente. Mas para a socióloga Marly Winckler, 51 anos, essa é uma visão ética do vegetarianismo. ''Não temos o direito de infrigir sofrimento a eles. Os animais sentem dor porque têm sistema nervoso desenvolvido como o do ser humano'', disse ela, que é presidente da Sociedade Vegetariana Brasileira, informando que cerca de 10% da população mundial é vegetariana e que 50% é semivegetariana, ou seja, como carne esporadicamente.
Segundo Winckler, uma pesquisa mostra que 28% do brasileiro deseja parar de comer carne. ''O que significa que eles acreditam que faz mal. Já está provado cientificamente que não precisamos de carne para viver, pelo contrário, a gente goza até de mais saúde'', compara. ''Colher uma fruta numa horta é um prazer para maioria das pessoas. Mas ir a um matadouro é uma experiência chocante. Diante da morte, o animal grita, corre, tenta se defender e isso tem uma mensagem evidente'', justifica Winckler responsável pela tradução em português da ''Libertação Animal'', do filósofo australiano Peter Singer, título considerado a bíblia da ética do vegetarianismo foi ele quem criou o termo especismo (preconceito com seres de outras espécies).
A socióloga foi a principal palestrante do ''I Simpósio Vegetariano de Curitiba'' e relacionou a prática com a preservação ecológica e soluções para a fome mundial. ''Mostro dados do impacto ambiental que a dieta centrada na carne gera. No Amazonas, o principal fator de destruição das florestas é a criação de gado e plantação de soja. E sabemos que 90% da soja plantada é exportada para virar ração de animal de corte'', informa ela, que também é coordenadora da América Latina e Caribe da União Vegetariana Internacional.
''Cada animal consome de sete a nove quilos de cerais para devolver um quilo de carne. É uma dieta que não está pensando em amenizar a fome do mundo, porque o planeta não suporta que ela seja estendida a todos. Então ela é antiética, porque muita gente fica de fora'', explica. ''O mesmo terreno que abriga uma cabeça de gado pode produzir alimentos para 40 pessoas. Seria uma opção lógica para racionalizar o uso dos recursos'', completa a socióloga, lembrando que o consumo de carne está ligado a doenças que levam ao óbito, como as cardiovasculares, diabetes e câncer. ''A American Dietetic Association é enfática ao afirmar que o médico deve estimular o vegetarianismo'', disse.
Para Winckler, existe um forte lobby que reforça o consumo de carne. ''As pessoas não divulgam, por exemplo, que atletas como Carl Lewis, o maior medalhista olímpico, é vegano (não consome proteína animal)'', critica. E destaca que indicadores de reconhecimento de um mercado em potencial no Brasil seria a expansão de setores dos supermercados como os orgânicos, integrais e saudáveis, além das duas principais indústrias de carne no Brasil terem lançado linhas vegetarianas. ''Eu costumo dizer que o vegetarianismo é um diamante lapidado e que cada faceta se soma a outra formando um ciclo virtuoso, porque a gente não encontra pontos negativos no vegetarianismo'', defende ela.


