Vasp atrasa pagamentos e fica sem três aviões
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segunda-feira, 03 de abril de 2000
Por Marli Lima e Thélio de Magalhães 
São Paulo, 04 (AE) - Três aviões da Vasp estão impedidos de voar desde o início da noite de segunda-feira. Eles foram arrestados por decisão judicial, pelo não pagamento das prestações de arrendamento à Vitória Régia Leasing Limited, com sede nas Ilhas Cayman, que contabiliza prejuízo de US$ 4,9 milhões. Segundo a Vasp, a Vitória Régia pertence ao ABN-Amro Bank.
O juiz da 24.ª Vara Cível da capital, Márcio Teixeira Laranjo, expediu mandado de reintegração de posse dos Boeings 737-300, na segunda-feira, quando eles foram lacrados e colocados à disposição da dona. A Vasp tentou liberar os aviões, juntando ao processo comprovante da remessa de US$ 600 mil para a credora, com data do dia 3, e prometendo pagar US$ 506 mil em 24 horas, que afirmou ser o "remanescente" da dívida. "Houve uma falha na comunicação e o banco não ficou sabendo do pagamento", diz Ruy Nogueira, porta-voz da companhia.
Até às 20 horas de hoje, os Boeings permaneciam estacionados no aeroporto de Congonhas. Em função disso, na segunda-feira, houve atraso em duas decolagens. Hoje, a empresa deslocou aviões de outros aeroportos mas, mesmo assim, teve que cancelar três vôos e recolocar os passageiros em outros horários.
Crise - Na renegociação da dívida com a Vitória Régia, a Vasp confessou, em 29 de março, não ter condições de pagá-la e pediu mais prazo. Alegou estar em dificuldades em virtude da "crise cambial". A desvalorização do real, na verdade, só agravou os problemas financeiros que as companhias aéreas já carregam há alguns anos.
As empresas do setor estão encerrando os anos 90 exatamente como começaram: no prejuízo. Levantamento da consultoria Economática, de São Paulo, mostra que Transbrasil, Vasp e Varig acumularam mais perdas do que ganhos nos últimos dez anos.
No ano passado não foi diferente. Aliás, teve até o agravante da desvalorização, já que boa parte dos custos e das dívidas das empresas, como aluguel de aviões, está atrelada ao dólar. Quando a moeda americana ficou mais cara, as empresas tentaram reduzir custos com a devolução de aviões e o cancelamento de rotas deficitárias. Não foi o suficiente para evitar mais perdas.
A Transbrasil foi a primeira a divulgar o balanço de 1999, com prejuízo de R$ 87 milhões. Hoje, a TAM Companhia de Investimentos em Transportes, holding que controla a TAM Regional e a Meridional, divulgou prejuízo de R$ 129 milhões. Segundo os dados da Economática, a TAM regional era a única que não havia apresentado prejuízos até 1998, situação que mudou em 1999. A comparação da TAM Regional com as outras três não é a ideal, pois ela não fazia vôos internacionais até o ano passado, mas é a única possível, porque que a holding só foi criada em 1997.
Desde 1990 a Varig, por exemplo, maior empresa de aviação do País, só teve lucro em dois anos: 1994 e 1997. A Transbrasil antecipou o lançamento de uma indenização que exigia da União por perdas em planos econômicos nos balanços de 1997 e 1998 e, mesmo assim, passou 6 dos 10 anos no vermelho. A Vasp já registrou quatro prejuízos no período e, até setembro, suas perdas somavam R$ 115 milhões.
Reestruturação - O presidente da TAM, Rolim Adolfo Amaro
publicou junto com o balanço uma carta declarando que o setor precisa de urgente reestruturação. "É vital que essa reestruturação do setor aéreo promova a definitiva liberação do sistema para que a economia do mercado possa ser a promotora da verdadeira e necessária competição entre as empresas."
As tentativas de reestruturação do setor não são assunto novo. No ano passado, chegou-se a cogitar, a fusão de TAM, Transbrasil, Varig e Vasp em uma única empresa. A sugestão, dada pelo presidente da Vasp, Wagner Canhedo, não foi aceita.
Fontes do Ministério do Desenvolvimento disseram que o problema do setor está sendo acompanhado e que há um estudo que mostra que apenas três companhias sobreviverão. Uma delas, segundo o estudo, é a Varig. As outras três terão que virar duas. Segundo essa fonte, se a reestruturação proposta for viável, poderão ter até a ajuda do BNDES.


