Washington (AE-AP) - O debate sobre os riscos e as desvantagens dos alimentos modificados geneticamente continua vigente entre cientistas e políticos. Contudo, as negociações para se chegar a um tratado internacional sobre plantas, animais e outros organismos alterados ainda vão longe.
"A nova tecnologia pode ser maravilhosa se manejada adequadamente. Porém, raras vezes é aplicada de forma correta e, obviamente, devemos estar conscientes dos possíveis riscos", alerta Per Pinstrup-Andersen, diretor-geral do Instituto Internacional de Investigação de Políticas Alimentares.
Os pesquisadores e as organizações não-governamentais afirmam que estes riscos vão desde possíveis efeitos sobre a saúde humana até consequências ambientais, como a disseminação de genes modificados através da polinização cruzada com outras plantas.
As companhias de grãos, entre elas Monsanto, Novartis e Pioneer Hi-Bred Internacional, afirmam que as alterações das culturas para que contenham toxinas mortais contras as pragas diminuem a necessidade de uso de pesticidas químicos e, desse modo, beneficiam o meio ambiente.
Essas empresas argumentam ainda que as culturas alteradas geneticamente aumentarão a produção agrícola de forma a alimentar a crescente população mundial.
"A preocupação com as futuras gerações que padecerão da escassez de alimentos não irá alimentá-las. Mas a biotecnologia sim", afirma uma campanha publicitária da Monsanto.
Os Estados Unidos e outros cinco grandes países produtores agrícolas - Argentina, Austrália, Canadá, Chile e Uruguai - também pregam as vantagens da nova tecnologia e rebatem as propostas para um tratado que regule o comércio dos produtos modificados geneticamente.
"As variedades de grãos melhorados geneticamente diminuem a incidência de pragas, aumentam as colheitas e reduzem a necessidade de uso de pesticidas", afirma uma carta enviado ao presidente norte-americano Bill Clinton por senadores que representam estados agrícolas.
Gordon Conway, presidente da Fundação Rockefeller, que financia investigações agrícolas, disse que a biotecnologia não é a solução para a escassez de alimentos no mundo. No entanto, oferece algumas vantagens que valem a pena serem estudadas.
"A vantagem da biotecnologia é que podemos começar a selecionar de maneira mais precisa os grupos de culturas que queremos. Cultivar demasiadamente de forma natural é produzir com azar", disse Conway, especialista em agricultura na ásia e na áfrica.
A ciência está muito perto de conseguir uma variedade de arroz com vitamina A. "Nos países em desenvolvimento há 120 milhões de crianças que sofrem de deficiência de vitamina A. Muitos deles morrem em decorrência disso", afirma o presidente da Fundação Rockefeller.
Conway reconhece que o arroz deverá ser testado para descartar possíveis riscos à saúde e ao meio ambiente. Porém, "as potenciais vantagens da vitamina A em um grão de arroz são seguramente muito maiores que os possíveis riscos", garante. No entanto, os possíveis efeitos negativos imprevisíveis não podem ser ignorados, argumentam os grupos ambientalistas e pesquisadores. Os centros de investigação continuam a elaborar informes sobre os potenciais riscos à saúde e ao ambiente dos organismos modificados geneticamente.
De acordo com um estudo publicado em maio pela revista "Nature", o pólen da planta do milho alterado geneticamente é tóxico para as mariposas da espécie monarca. O milho foi modificado pela companhia Monsanto para conter uma toxina da bactéria "bacillus thuringiensis", mais conhecida como "Bt".
Estima-se que o uso desse grão aumentará muito em um ano. O estudo da revista "Nature" descobriu que quase 50% das mariposas monarcas alimentadas com folhas de plantas pulverizadas com o pólen do milho "Bt" morreram. As sobreviventes teriam a metade do tamanho em relação aquelas que foram alimentadas com folhas de plantas pulverizadas com pólen de milho normal.
"Durante muito tempo a engenharia genética foi apresentada à população como uma alternativa segura ao uso tradicional de pesticidas. Contudo, os cultivos modificados, na realidade, são utilizados como um novo método para disseminar os pesticidas químicos", afirmou Rebecca Goldburg, cientista do Fundo de Defesa Ambiental.
"As mariposas monarcas que se alimentam com folhas cobertas de pólen ao redor dos campos de milho Bt também podem estar comendo folhas impregnadas com pesticidas. De um modo ou de outro, o resultado é o mesmo: mariposas mortas", acrescentou Goldburg.
A cientista do Fundo de Defesa Ambiental persuadiu a Agência de Proteção Ambiental (EPA em inglês) dos EUA, que regula o uso de pesticidas, a limitar as extensões de terras agrícolas cultivadas com o milho "Bt", até que se desenvolva um plano para proteger as mariposas.
Este ano, mais de 650 organizações - incluindo o Greenpeace e a Federação Internacional de Movimentos de Agricultura Orgânica - prepararam um requerimento contra a aprovação do cultivo do milho "Bt" pela EPA.
A toxina "Bt" foi utilizada em forma de pulverizador durante anos pelos agricultores orgânicos que não usam pesticidas industriais. Os ambientalistas alertam que, com as culturas alteradas para conter o "Bt", os insetos são constantemente bombardeados com o produto químico e, em alguns anos, as pragas irão tornar-se resistentes ao pesticida.
"Quando ocorrer essa resistência, os agricultores que cultivam grãos "Bt" voltarão a utilizar inseticidas sintéticos e os agricultores orgânicos e convencionais perderão um pesticida biológico seguro", disse a pesquisadora Jane Rissler.
Os grupos também observaram que a EPA não estudou adequadamente a possibilidade da toxina "Bt" ser levada a outras plantas através da polinização cruzada. Foram registrados informes de tal polinização na Alemanha, Canadá e Estados Unidos.
A companhia Monsanto afirmou que os riscos associados com a resistência de pragas podem ser minimizados da seguinte forma: plantando outras culturas que não tenham sido geneticamente alteradas ao redor do milho "Bt". Contudo, de acordo com Per Pinstrup-Andersen, do Instituto Internacional de Investigação de Políticas Alimentares, nenhuma companhia utiliza-se de tal sistema. "A tecnologia não é bem aplicada atualmente", afirmou.
Considerando a ampla gama de opiniões sobre a biotecnologia, é provável que o comércio de produtos modificados geneticamente seja um tema-chave na reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio marcada para o final do ano.
"O que necessitamos é de um fórum mundial onde todas as partes interessadas - governos, organizações não-governamentais e a indústria - possam trocar informações sobre os riscos e os aspectos positivos da biotecnologia, para que possamos distinguir uns entre outros", acrescentou Andersen.

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