Lima, 10 (AE) - O presidente do Escritório Nacional de Processos Eleitorais do Peru (Onpe), José Portillo, divulgou nesta segunda-feira (10) um boletim oficial, com 55,94% dos votos apurados, que atribuía ao presidente Alberto Fujimori 49 63% dos votos e ao economista Alejandro Toledo, do partido Peru Possível, 40,62%.
Esses números deixam Fujimori, candidato a um terceiro mandato consecutivo pela Aliança Peru 2000, a 0,37 ponto porcentual de uma vitória no primeiro turno, contrariando as contagens paralelas das três instituições de pesquisa e da Associação Cívica Transparência, que apontam para a realização de um segundo turno, que ocorreria no primeiro domingo de junho.
"Meu partido e os movimentos políticos de todos os candidatos que generosamente me ofereceram seu apoio não reconhecem nem reconhecerão nenhum resultado divulgado pelo Onpe, qualquer que seja esse resultado", declarou Toledo na tarde de hoje, logo depois da divulgação do primeiro boletim, no qual Fujimori aparecia com 49,88% dos votos.
"Em Lima, em Cuzco, em Arequipa, em Iquitos, em Chiclayo e em todas as cidades do Peru, milhões marcharão se quiserem dobrar a vontade do povo."
"Não se pode querer que uma amostragem de 700 mesas possa dar resultados seguros sobre um universo de 900.000 mesas", disse Fujimori a jornalistas estrangeiros. "O Onpe é o organismo constitucionalmente habilitado para realizar o escrutínio dos votos. Se o candidato Toledo não respeitar os resultados dessa entidade, não estará respeitando a vontade do povo."
Ante a possibilidade de a oposição retirar-se totalmente do processo eleitoral, o congressista do movimento Câmbio 90, Daniel Espichán, ligado a Fujimori, lembrou de uma jurisprudência que poderia ser considerada para que o Jurado Nacional de Eleições (JNE) declare o atual presidente eleito já no primeiro turno, mesmo que não alcance os 50% dos votos.
"Podemos lembrar que Alan García foi declarado vencedor da eleição de 1985 pela Justiça Eleitoral no primeiro turno com apenas 49% dos votos, quando a oposição também se retirou da eleição", disse Espichán.
Não ficou claro se os partidos oposicionistas se retirariam também das eleições legislativas, o que deixaria o movimento Peru 2000 com quase a totalidade das cadeiras do Congresso.
O anúncio oficial causou reação imediata da Transparência e da Embaixada dos Estados Unidos em Lima. Minutos antes de Portillo divulgar o boletim, a Transparência emitiu uma declaração à imprensa informando o resultado final de sua contagem paralela - 48,7% para Fujimori e 41,5% para Toledo -, frisando que a margem de erro desses números não poderia passar de 0,2 ponto e reiterando que qualquer resultado diferente seria uma fraude.
"Nossa expectativa é de que vai haver segundo turno, e ponto", declarou o embaixador norte-americano no Peru, John Hamilton, ao ser procurado por jornalistas em sua casa. "Temos a confiança de que as eleições serão limpas e justas e aceitamos o resultado da Associação Cívica Transparência - de cujo trabalho conhecemos o método científico - como uma projeção segura."
Na semana passada, o Departamento de Estado e o Senado dos EUA advertiram o governo peruano de que Washington suspenderia a ajuda militar e econômica ao país, caso as eleições não fossem limpas.
Durante todo o dia da eleição, funcionários da Transparência, da Missão de Observação Eleitoral da Organização dos Estados Americanos (OEA), do Centro Carter e de outras entidades que se dispuseram a fiscalizar a votação denunciaram uma série de irregularidades, como o recebimento pelos eleitores de cédulas previamente marcadas, restrição aos trabalhos dos fiscais dos partidos da oposição e propaganda eleitoral ilegal. Em Lima, as cédulas de uma mesa eleitoral não apresentavam, por um defeito de corte tipográfico, a linha correspondente ao nome e à foto de Toledo.
Hoje, repórteres do Canal N receberam a denúncia de que uma pessoa estava invadindo a página do Onpe na Internet, aparentemente para modificar mapas eleitorais. A emissora flagrou um engenheiro eletrônico, funcionário da Aliança Peru 2000, numa cabine de Internet pública, num centro comercial do distrito de Camacho. O engenheiro não quis dizer aos repórteres o que fazia ali.
A tensão sobre as eleições peruanas começou a aumentar no domingo à noite, quando os resultados das contagens paralelas foram divulgados, invertendo os resultados da boca-de-urna, que davam a vitória a Toledo e deixavam Fujimori em segundo lugar.
Reunido a outros seis candidatos - nove concorreram no primeiro turno -, Toledo aguardava diante de uma multidão de 10.000 pessoas, na frente do Hotel Sheraton, no centro de Lima, o primeiro boletim do Onpe.
Mas Portillo só chegou à sala onde divulgaria o boletim depois da meia-noite (2 horas em Brasília) e, em vez de dar cifras consistentes, passou a simplesmente ler números dos mapas eleitorais.
No balcão do Sheraton, Toledo só balançava a cabeça diante do público, em sinal de desaprovação. Ainda ao lado dos outros candidatos, repetiu as declarações que tinha dado no centro de imprensa, no mesmo hotel, de que havia um plano em marcha para "suplantar a vontade do povo".
Inesperadamente, sem antes falar com ninguém, fez um temerário convite à multidão: "Vou pedir-lhes algo, e aos meus companheiros que aqui estão (voltando-se para os candidatos que lhe tinham prometido apoio). Algo que precisamos fazer para que o governo saiba que estamos de pé para evitar a tentativa de reverter a vontade do povo. Vamos marchar ao palácio do governo! Vamos fazer com que nos escutem!"
Os candidatos pareciam constrangidos no momento em que o convite foi feito. O prefeito de Lima, Alberto Andrade, falou algo ao seu ouvido. Logo depois, Toledo pediu, "pelo amor de Deus", que a marcha, de dez quadras, transcorresse em paz. "Não vamos fazer nada que a ditadura possa usar contra nós", reiterou.
"Ao palácio! Ao palácio!", passaram a gritar os manifestantes. Cerca de 5.000 começaram a marchar, sob a liderança de Toledo e dos demais candidatos. Ao chegarem, forças especiais da polícia esperavam os seguidores do oposicionista com bombas de gás lacrimogêneo. Policiais e manifestantes não chegaram a entrar em confronto por que as grades de ferro do palácio os separavam.
A multidão só se dispersou depois de 45 minutos. Alguns manifestantes saíram com escoriações. De acordo com analistas políticos, porém, a ação de Toledo de incitar a população a marchar em direção ao palácio pode ter-lhe custado votos importantes para um eventual segundo turno. "Esse é um país ferido pela violência, e esses atos não são bem-vindos aqui", disse Hugo Guerra, analista do jornal El Comercio e do Canal N.

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