Vamos extinguir a taxa de turismo
Vamos extinguir a taxa de turismo
Ney de SouzaValmir Denardin
A taxa de turismo - tributo de R$ 1,90 cobrado diariamente pela Foztur dos hóspedes de hotéis da cidade - sofreu deformações em seu objetivo e deverá ser extinta. Essa é a opinião do presidente do Conselho Municipal de Turismo (Comtur), Marcelo Valente. A taxa foi criada para divulgar Foz, mas acabou sendo usada para o custeio da Foztur.
A principal contribuição do Comtur foi a elaboração, há dois anos, do Plano de Turismo de Foz do Iguaçu (Turplan), um compêndio de metas para o setor. A cada três meses, o Turplan é reavaliado. Eleito em abril último, para um mandato de um ano, Valente, diretor do Hotel Bella Itália, concedeu a seguinte entrevista à Folha.
Folha - Qual é a função do Comtur?
Marcelo Zattar Valente Aymoré - O Conselho Municipal de Turismo é um órgão colegiado criado em 1977, que envolve as principais entidades ligadas ao turismo de Foz do Iguaçu, como a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), a Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav), a Foztur e a Unioeste. Tem como função principal aconselhar e propor à prefeitura medidas para melhorar o turismo na cidade.
Folha - Quais são os principais trabalhos que o Comtur está realizando nessa gestão?
Valente - Hoje o turismo de Foz do Iguaçu passa por uma reformulação total e o Comtur tem sido o braço direito da Foztur nesse processo. Estamos trabalhando em três frentes. A primeira é para que a Foztur se transforme em uma autarquia e consiga reduzir suas despesas. A segunda é a extinção da taxa de turismo. Essa taxa já teve o seu objetivo, que não foi alcançado. Ela desagrada tanto ao órgão que arrecada (a Foztur), quanto a quem cobra (os hotéis) e a quem paga (o turista). A terceira frente é a criação do Iguassu Visitors & Convention Bureau (entidade privada, mantida pelos empresários, para divulgar a cidade, com os objetivos de atrair visitantes e captar eventos). Os projetos de transformação da figura jurídica da Foztur e da extinção da taxa de turismo devem ser enviados à Câmara ainda este mês. Se forem aprovados, deverão vigorar já no ano que vem.
Folha - De que forma essas medidas vão alterar o dia-a-dia do turismo na cidade?
Valente - Muda conceitalmente. São três medidas que reformulam o setor. Será o fim da dependência que a iniciativa privada ainda tem do órgão público. Como o dinheiro arrecadado com a taxa de turismo não era destinado a sua finalidade inicial, estávamos perdendo mercado para destinos concorrentes, em função da agilidade e da competência que eles têm. Nós (os empresários) ficávamos esperando que a Foztur fizesse o nosso papel.
Folha - A Foztur sempre alegou que a taxa de turismo é importante para a manutenção do órgão. Se a taxa for extinta, como a Foztur vai se manter?
Valente - A taxa de turismo sofreu deformações. Foi criada para divulgar Foz, mas acabou sendo usada para o custeio da Foztur. Acreditamos que um órgão oficial de turismo deve ser mantido pelo orçamento público. Como a taxa perdeu a sua finalidade, nada melhor do que extinguí-la e criarmos novos mecanismos para a divulgação e a captação de turismo.
Folha - Muitos empresários do setor afirmam que a cobrança da taxa de turismo afasta turistas da cidade. O senhor concorda com isso?
Valente - A taxa prejudica o turismo porque penaliza o visitante. Deveria ser o contrário: deveríamos pagar às pessoas que vêm aqui gerar renda e empregos.
Folha - O ciclo dos sacoleiros está no fim. E agora, qual é a saída para o turismo de Foz do Iguaçu?
Valente - Infelizmente, o ciclo dos sacoleiros foi pernicioso para o turismo de Foz. Quem direcionou seus investimentos para atender a esse segmento está passando por uma situação difícil. Para esses empreendimentos, não há saída. Ou eles se reformulam ou fecham as portas. Com isso, os poucos hotéis que sobrarem passarão a ter uma melhor demanda, melhorando seus serviços e seus preços. A saída é o investimento no turismo de eventos. Para isso é fundamental a conclusão do Centro de Convenções. Temos um diferencial único nesse setor. Podemos aliar a beleza das Cataratas à realização de eventos.
Folha - A estrutura existente nos hotéis não é suficiente para que Foz se consolide como um pólo de eventos?
Valente - Temos hotéis bem estruturados, mas que não comportam grandes eventos. Mas há outro problema. Hoje, só os hotéis top de linha têm estrutura para eventos. Não temos estrutura nos hotéis médios, com diárias mais baratas. Os eventos para esse público poderão ser levados para o Centro de Convenções.
Folha - Por que o ciclo dos sacoleiros foi nocivo para o turismo de Foz?
Valente - Boa parte dos empresários e dirigentes públicos da cidade direcionou seus investimentos para um ciclo que tinha data para acabar. Como era uma área que não precisava de qualidade nos serviços, apenas preço, isso acabou gerando preços baixos nos serviços prestados, mas com baixa qualidade.
Folha - Mas os preços baixos nas diárias dos hotéis não é um ponto positivo, que pode ser usado como atrativo para o turista?
Valente - Mas esse preço baixo não é uma jogada de marketing, mas em função do excesso de oferta. Temos 195 hotéis em Foz hoje, com mais de 22 mil leitos. A demanda não ocupa nem 40% desses leitos. Muitos estabelecimentos deverão fechar, até chegarmos num patamar de 100 hotéis. Isso fará o preço da diária subir e provocar uma melhora na qualidade do serviços. Essa qualidade será nosso marketing no futuro.
Folha - Que avaliação o senhor faz da proposta da Foztur, de incentivar o turismo econômico (para famílias com renda mensal até 12 salários mínimos -R$ 1.560,00)?
Valente - É um dos projetos que pode colaborar nessa reestruturação que estamos planejando para o turismo de Foz. É uma alternativa para as empresas, principalmente os hotéis, que investiram tudo no segmento do comprismo, cujo fim é inexorável.
Folha - Há um movimento na fronteira para a abertura do comércio de Ciudad del Este à noite. Foz seria beneficiada com essa medida?
Valente - Ciudad del Este não vai acabar. O que está com os dias contados é o ciclo dos muambeiros. O turismo de compras existe em qualquer lugar do mundo e é um dos principais atrativos das Três Fronteiras. A dilatação do horário de atendimento é positiva porque será um atrativo a mais para quem visita Foz do Iguaçu.
Folha - Haverá novidades para o Prêmio Toptur deste ano?
Valente - Criado há dez anos, o prêmio do Comtur é concedido a estabelecimentos e pessoas que se destacam no turismo de Foz do Iguaçu. Esse ano terá roupagem nova. Criamos a Academia do Turismo de Foz do Iguaçu, que vai escolher três indicados para cada uma das 17 categorias do Toptur. A entrega será feita de uma maneira similar à do Oscar, no início de dezembro. Queremos que a cerimônia se torne tradicional no setor turístico do País.
P E R F I L
Nome: Marcelo Zattar Valente Aymoré
Idade: 31
Estado civil: casado; um filho
Profissão: adm. de empresas e advogado
Cargo atual: presidente do Conselho Municipal de Turismo de Foz do Iguaçu e diretor da regional da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis
Atividade empresarial: diretor do Hotel Bella Itália





