Vale macedônio transforma-se em inferno
PUBLICAÇÃO
domingo, 04 de abril de 1999
Por Jeremy Gaunt 
BLACE, Macedônia, 05 (AE-REUTERS) - Alguns dos guardas da Macedônia observando refugiados kosovares cercados no lado de fora do posto fronteiriço de Blace começaram a usar máscaras cirúrgicas e seguram suas armas também com luvas cirúrgicas.
Quando você sente o cheiro vindo de cerca de meio quilômetro de distância, você entende o por quê.
Expulsos de suas casas pelos sérvios, os 65.000 albaneses étnicos parecem não mais do que desterrados na relativa segurança do campo lamacento, fétido, onde foram deixados ao relento por autoridades macedônias que não podem ou não querem deixá-los entrar.
Repórteres estão proibidos de ir até o campo, tendo sido relegados a sentir o cheiro e observar na terra de ninguém que homem nenhum iria querer estar.
Até onde os olhos conseguem ver existem pessoas, amontoadas ao redor de barracas cobertas com plástico que protegem alguns da chuva mas não do sol ou do frio noturno. Alguns estão aqui há varios dias.
E a cada hora, trens iugoslavos trazendo albaneses étnicos da capital kosovar de Pristina e de outras cidades despejam mais miseráveis no que ainda é um pitoresco vale com um rio passando por ele.
A Macedônia já deixou entrarem 55.000 refugiados e, temendo que sua delicada balança étnica e sua frágil economia sejam afogadas pela maré albanesa, diz que agora só irá admitir aqueles que outros países possam levar.
Guardas armados, alguns com cachorros, cercaram os refugiados neste inferno de murmúrios.
Quando a multidão parte, o que se vê é lixo, lama e coisas piores.
Policiais disseram que foram instalados alguns sanitários - sendo que alguns deles lembraram que chegaram com seis dias de atraso.
No campo, há um admirável silêncio. Poucos parecem ter forças para levantar a voz. Praticamente todos parecem confusos e machucados.
Aqueles que finalmente conseguem sair contam todos a mesma história. Sérvios armados os forçaram a sair de suas casas, deixando tudo para trás, e colocou-os em trens que os levaram à fronteira.
Eles não fazem idéia do porquê estão sendo detidos nesta terra de ninguém por dias com pouca alimentação e água, e nem para onde serão levados.
Relatos de famílias divididas são comuns. Um homem, liberado de Blace com seus três netos e a mãe deles, disse que sua mulher e dois filhos ainda estão escondidos em Pristina.
Outro, confuso, andou até os repórteres que os observavam dizendo que sua mulher ainda estava no campo abaixo e que a estava procurando por três dias.
Descendo a estrada, uma mulher chorosa e seu filho esperavam em uma rua empoeirada argumentando em vão com guardas para serem aceitos em um campo de refugiados onde ela dizia estar seu marido.
Os sortudos foram colocados em ônibus - às vezes por seis horas - e então foram enviados a uma casa ou a um campo. Os azarados estavam em macas na lama. Alguns foram dados como mortos, mas ninguém parecia estar contando quantos.
Havia muitos rumores sobre doenças nos campos de Blace, mas funcionários de equipes humanitárias diziam não haver nada muito grave - alguns casos de tuberculose, febre e diarréia moderada.
Um caminhão jogou desinfetante ao longo da estrada antes de uma visita planejada pelo primeiro-ministro da Macedônia, Ljubco Georgievski.
Perguntaram o motivo da visita a um irritado guarda de fronteira. "Talvez para cheirar e partir", respondeu.


