‘‘A política do vaga zero parte do princípio de que se o paciente está em uma ambulância, precisando de socorro, é mais lógico levá-lo a uma emergência, estabilizá-lo, do que deixá-lo sem atendimento. E de fato, é isto mesmo que tem que acontecer. O problema é que depois de estabilizado, este paciente, na maioria das vezes, vai precisar ser encaminhado para um centro cirúrgico, uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva) ou mesmo para uma enfermaria’’, advertiu o diretor geral do Hospital Evangélico (HE) de Londrina, Luiz Koury.
  De acordo com o médico, o sistema de regulação deveria cuidar, neste momento, de transferir o paciente para outra instituição com vaga disponível. ‘‘Mas isto não acontece e o hospital que abriu as portas para prestar os primeiros socorros fica com o ônus de todos os procedimentos posteriores.’’ O resultado, afirmou Koury, é o acúmulo de pacientes na sala de emergência durante dias seguidos, aguardando vaga. ‘‘É como se aquele paciente não fosse mais problema do sistema público de saúde, mas sim do hospital que garantiu o primeiro atendimento.’’
  O diretor ressaltou ainda que quando o governo federal instituiu o Programa de Atendimento a Urgência e Emergência – criando o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e o Serviço Integrado de Atendimento ao Trauma e Emergências (Siate) – foram previstos investimentos nas unidades de emergência dos hospitais e em leitos de UTI, já que a medida vinha justamente para melhorar o cuidado pré-hospitalar e transportar rapidamente pacientes graves para atendimento hospitalar. ‘‘Este investimento, porém, nunca aconteceu, o que estrangulou os prontos-socorros’’, constatou Koury.
  De acordo com a assessoria de imprensa do hospital, entre março, abril e maio deste ano foram atendidos 331 pacientes vaga zero no PS do Evangélico, sendo que o mês mais crítico foi abril, com 132 pacientes. Outro grande hospital terciário de Londrina, a Santa Casa, informou que receber pacientes de urgência sem leito disponível é rotina na instituição, mas que não detalha estes atendimentos.
  Segundo a coordenadora macrorregional da Central Estadual de Leitos, Terezinha Fátima Sanchez, o Norte do Estado dispõe de cinco regionais de saúde: Ivaiporã, Apucarana, Cornélio Procópio, Jacarezinho e Londrina. A única, segundo ela, que apresenta defasagem de leitos de UTI é Londrina, por atender casos de maior complexidade. ‘‘Os pedidos de vaga zero só são feitos quando há risco iminente de morte. A regulação macronorte não manda paciente de outro município para Londrina por falta leito na origem, mas por necessidade de maior complexidade de atendimento’’, esclareceu.
  A realidade é velha conhecida das autoridades públicas. Já no primeiro parágrafo da portaria nº 2048, de novembro de 2002, que institui o conceito, o texto disse: ‘‘A área de Urgência e Emergência constitui-se em um importante componente da assistência à saúde. A crescente demanda por serviços nesta área nos últimos anos, devido ao crescimento do número de acidentes e da violência urbana e à insuficiente estruturação da rede são fatores que têm contribuído decisivamente para a sobrecarga dos serviços de Urgência e Emergência disponibilizados para o atendimento da população. Isso tem transformado esta área numa das mais problemáticas do Sistema de Saúde’’.
  A assessoria do Ministério da Saúde informou que a regulação de leitos é prerrogativa dos gestores locais (Município e Estado), bem como a responsabilidade por ampliar os serviços de forma a garantir o atendimento.

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