De um lado, prontos-socorros (PSs) com estrutura defasada e sem recursos para ampliação. De outro, um número cada vez maior de idosos e de vítimas da violência urbana. O resultado desta combinação é uma indesejada realidade para os brasileiros: instituições de saúde de média e alta complexidade vivendo uma realidade próxima à de hospitais de guerra, com setores de urgência e emergência superlotados e profissionais no limite do estresse. Há nove anos, para garantir o atendimento a casos de urgência mesmo quando não há leitos vagos nos hospitais com maior gama de recursos, o Ministério da Saúde criou o conceito da chamada ‘vaga zero’. Hoje, ela até pode ser uma garantia para quem corre risco de morte mas é uma ‘‘batata quente’’ para administradores dos PSs.
  Na maior instituição pública de saúde de Londrina, o Hospital Universitário (HU), a rotina do pronto-socorro mescla sobrecarga de médicos e funcionários, longos períodos de espera para pacientes em nível intermediário de gravidade, constantes retenções de macas do Samu e Siate e esforços para conter os riscos de infecção, potencializados pela superlotação. A capacidade, que é de 48 leitos, é constantemente ultrapassada em 100%.
  ‘‘O problema é que a portaria que cria a vaga zero determina o atendimento, e não a internação, e uma vez que o paciente entra em uma instituição do porte do HU, dificilmente se consegue transferi-lo para outro hospital. A lei não limita a capacidade física e humana. Não é raro atendermos 90, até 100 pacientes’’, alertou José Roberto de Almeida, chefe médico do pronto-socorro do HU. Segundo ele, os três consultórios do PS ficam constantemente ocupados por dois a três pacientes de uma só vez.
  Almeida lembrou que, apesar do constante aumento da demanda, o número de leitos de gravidade não aumenta há décadas no hospital. ‘‘Estou aqui há 20 anos e desde que entrei o número é o mesmo’’, disse o chefe do PS. Segundo o médico, a procura direta por atendimento no hospital por parte da população só agrava o problema. ‘‘Alguns esperam 10, 12 horas na fila do pronto-socorro. Reconhecemos que é desumano, mas é porque estas pessoas não precisariam estar nesta unidade, e sim na rede básica. Não se tratam de quadros graves o suficiente para estar em um hospital de referência. A demora não é porque não queremos atendê-los, mas porque não temos local. Quando chega paciente vaga zero, tem que ser prioridade’’, explicou Almeida.
  A diretora clínica do hospital, Denise Akemi Mashima, comentou que a situação caótica vivida nos prontos-socorros é só a ‘‘ponta do iceberg’’, já que a questão é muito mais abrangente. ‘‘É preciso ver por que esta superlotação nos prontos-socorros está aumentando. O perfil da população mudou, algumas doenças são mais frequentes, mas o que mais altera este quadro é o crescimento da violência, com grande número de acidentes e de baleados, e a existência, hoje, do atendimento pré-hospitalar, feito pelo Samu e Siate. Pacientes que antes morriam no local do acidente agora chegam vivos ao hospital, e é preciso ter estrutura para atendê-los.’’
  Por fim, Denise citou a baixa confiança da população no atendimento básico – que não encontra a assistência nos postos de saúde – como mais uma causa do estrangulamento. Segundo a médica, os pacientes acostumam-se a ir direto para hospitais de alta complexidade como o HU. ‘‘Atualmente, a gente tem que atender o que é nossa obrigação e mais um pouco’’, queixou-se a diretora.
Quatro horas de espera
  Na última quarta-feira, a auxiliar administrativo Adriana Aparecida Alves enfrentou frio e chuva para levar o filho Jean Carlos Alves de Souza, que sofreu acidente de moto há quase um mês, para retorno no setor de ortopedia do HU. No início da tarde, ela contalizava quase quatro horas de espera.
  ‘‘Na semana passada viemos aqui porque ele não estava aguentando de dor. Depois de quatro horas de espera, saímos sem atendimento’’, contou Adriana. Segundo ela, além de quebrar o úmero, o filho teve que fazer uma cirurgia no fígado e ainda está muito fraco. ‘‘A gente fica aqui várias horas sem comer e sem um posicionamento sobre quando seremos atendidos. É muito complicado.’’ Como Jean foi socorrido e operado no HU, Adriana disse que não adianta, agora, procurar outros hospitais ou unidades de saúde.

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