Vacina para Covid-19 desenvolvida na UFPR pode chegar em 2022
Desenvolvimento do imunizante nesse prazo ainda está condicionado ao financiamento de pesquisas
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de abril de 2021
Desenvolvimento do imunizante nesse prazo ainda está condicionado ao financiamento de pesquisas
Vitor Ogawa - Grupo Folha 
A vacina para Covid-19 desenvolvida na UFPR (Universidade Federal do Paraná) pode chegar em 2022. A afirmação é do professor Ricardo Marcelo Fonseca, reitor da instituição, em entrevista coletiva realizada nesta segunda-feira (26). No entanto, o desenvolvimento nesse prazo está condicionado ao financiamento das pesquisas, que em todas as suas fases pode corresponder a R$ 50 milhões, valor obtido por comparação com outras pesquisas.
O superintendente da Seti (Superintendência de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Governo do Estado do Paraná), Aldo Nelson Bona, ressaltou que o governo estadual assinou convênio para apoiar a iniciativa financiando equipamentos de custeio na ordem de R$ 700 mil e apoiando com bolsa de pós-doutorado, disponibilizando R$ 295 mil pela Fundação Araucária. "Estes recursos devem ser suficientes para levar ao fim essa fase de estudo pré-clínicos. Para o estudos clínicos o volume de dinheiro será mais vultoso e o Estado do Paraná está sensibilizado para que estes estudos não sejam interrompidos por falta de recursos."

No entanto, os R$ 207,2 milhões que estavam reservados para o desenvolvimento de vacinas, dos quais R$ 200 milhões haviam sido injetados por meio de emenda do relator, senador Marcio Bittar (MDB-AC), sofreram bloqueios do presidente Jair Bolsonaro no último dia 24.

"Esta vacina é necessária para o Brasil e para o mundo não só para 2021, mas para os próximos anos. Não temos resultados concretos da fase 4 e os estudos clínicos levam tempo. Não sabemos quanto tempo dura essa imunização, se dura seis meses ou um ano, mas dentro desse cenário de incertezas precisamos fazer apostas para o nosso futuro. Pode ser que ela fique pronta em 2022, 2023, ou talvez até depois", disse o reitor.
Ele explicou que duas vacinas brasileiras já estão mais adiantadas e pediram para ingressar na fase clínica: a Butanvac e a Versamune, da USP de Ribeirão Preto, mas a da UFPR está entre as quatro ou cinco vacinas mais adiantadas em seus estágios de pesquisa. "Esperamos chegar nesse estágio de fase clínica dentro de seis meses se não ocorrer nenhuma intercorrência.", completou Fonseca.

Segundo ele, a depender das evoluções das pesquisas, pode ser administrada como spray nasal e pode ser recombinada para usos contra outras doenças que ainda não foram possíveis de erradicar, como a dengue, a chikungunya, a zika e outras possibilidades. "Pode servir para o futuro de nossa comunidade paranaense, brasileira e, por que não dizer, mundial."
O pesquisador Marcelo Müller dos Santos explicou que as partículas do PHB (biopolímero bacteriano polihidroxibutirato ) são utilizadas pelos pesquisadores para inserir partes da proteína extraída da bactéria Escherichia Colli (tratada para tirar a sua toxidade) e que simula a proteína S do vírus Sars-CoV-2. Fica como se fosse uma coroa e isso facilita o reconhecimento da partícula. "A bactéria é cultivada a 37 ºC. Trabalhamos com volumes pequenos, mas isso pode ser escalonado. Já temos empresas que produzem esses biopolímeros no Brasil e com licenças para produzir o material."
Diferentemente de vacinas que exigem refrigeração polar para seu armazenamento, neste caso o armazenamento de bancada permitiu que a vacina permanecesse íntegra à temperatura ambiente por três meses. "A cada 15 dias verificávamos se aquele imunizante ainda estava inteiro e se o sistema imune de um paciente ainda reconhecia aquela proteína e constatamos que ela é bastante estável. Ainda precisamos estudar se podemos transportar na forma de pó (liofilizá-lo), ou seja, remover o líquido para transportar e armazenar até o momento da imunização. Isso seria importante, principalmente no Brasil", destacou.
VACINA DE BAIXO CUSTO
O pesquisador Emanuel Maltempi de Souza, professor do Departamento de Bioquímica da UFPR, ressaltou que o custo, sem contar a mão de obra para produzir e os gastos com equipamentos, foi de R$ 5 a R$10. "É um custo baixo se for comparado ao de outras vacinas. Da Pfizer falaram que varia entre 11 e 40 dólares a dose. Vejo os preços da Coronavac variando de 25 a 40 dólares a dose. A questão é que quando a empresa vende, nem sempre usa o preço real", destacou.
Ele ressaltou que estão sendo realizados testes por meio da vacina injetável e pelo spray nasal, e este último apresentou melhores resultados. Segundo Souza, ainda não tem nenhuma vacina com essa tecnologia em uso. "Tem dois ou três estudos publicados com bons resultados. Há uma vacina mais parecida em concepção, mas que usa outro tipo de biopolímero, mas o seu uso não foi autorizado em nenhum país", apontou. Ele afirmou que na ciência é difícil dizer que uma vacina foi totalmente produzida com tecnologia nacional. "Na ciência, construímos em cima de conhecimento acumulado, inclusive do nosso próprio conhecimento." Ele ressaltou que a pesquisa com biopolímeros na UFPR era para que ele fosse usado no lugar do plástico, mas os custos elevados impediram o seu uso como tal. Mas eles vislumbraram que ele poderia ser utilizado na área médica. "Esses biopolímeros são biodegradáveis. Todo o material usado para produzir vacinas não deixará traços no organismo", destacou.
"É uma plataforma tecnológica sem a dependência de produtos importados. Fizemos três ensaios em animais e o soro produziu um nível muito alto de anticorpos. Isso ocorreu mesmo com o soro diluído pelo menos 16 mil vezes. Chegamos a diluir 500 mil vezes e tivemos resposta imune com alto nível de produção de anticorpos", apontou.


