Por quê o sistema imunológico de algumas pessoas responde tão bem ao tratamento a ponto até mesmo de destruir o câncer, enquanto o de outras parece simplesmente não reagir à doença? Especialistas do Memorial Hospital, de Nova York, ainda não sabem a resposta. Mas pesquisando as características desses organismos privilegiados desenvolvem uma vacina que tem por objetivo estimular o sistema imunológico das pessoas que sofrem de câncer de pele. A vacina já está sendo testada com resultado positivo e deverá estar disponível dentro de alguns anos.
O tema foi abordado, ontem, no Rio, no terceiro dia do 17º Congresso Mundial de Câncer, pelo especialista Jonathan Lewis, do Serviço de Imunologia do Memorial Hospital. A equipe de Lewis desenvolve uma vacina contra o melanoma (câncer de pele), utilizando a tirosenase - uma enzima encontrada no corpo de um paciente que tinha melanoma em estágio avançado, mas, contrariando as espectativas, sobreviveu à doença. ‘‘Esse paciente deveria ter morrido’’, afirmou Lewis. ‘‘Mas pesquisando seu caso encontramos a enzima que o seu sistema usou para destruir o melanoma’’.
A equipe de Lewis usou então a enzima descoberta como vacina e a aplicou em um grupo de nove pacientes. ‘‘Dois pacientes tiveram uma resposta significativa’’, contou. Encerrada a primeira etapa da pesquisa, Lewis está partindo agora para a segunda, que consiste, justamente, na testagem da vacina em larga escala. ‘‘O objetivo da vacina não é eliminar o melanoma’’, alertou. ‘‘Mas sim buscar uma resposta do sistema imunológico’’. Segundo ele, quando o sistema imunológico responde bem, o paciente tem chances maiores de viver mais e melhor.
Lewis lembrou que o princípio da vacina contra o câncer é bastante diferente do da vacina contra infecções, que costuma ser preventiva. ‘‘Essa vacina não evita o câncer; ela deve ser usada, junto com outros métodos, para ajudar a combatê-lo’’. O médico mostrou-se bastante otimista quanto à vacina que, acredita, levará poucos anos para estar disponível.
O otimismo é tanto, que a equipe de Lewis já começou a aplicar o mesmo princípio para desenvolver vacinas para o câncer de pâncreas e o sarcoma. ‘‘Há 100 anos se sabe que o sistema imunológico do corpo pode destruir o câncer’’, lembrou. ‘‘Mas só nos últimos cinco anos sabemos como o sistema imunológico pode atacar as células cancerosas’’.
Uma outra vacina contra o melanoma encontra-se em fase final de testes nos Estados Unidos. Trata-se do gangliosídio. ‘‘A diferença é que a nossa vacina atua nas células e essa outra nos anticorpos’’, explicou Lewis. Segundo o médico, até hoje uma única vacina é usada no tratamento do câncer: a boa e velha BCG, desenvolvida originalmente para o combate à tuberculose. ‘‘Em alguns casos de estágios iniciais de câncer na bexiga ela é eficaz’’.

mockup