Vacina contra Covid-19: A população está otimista, mas com o `pé atrás´
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sábado, 15 de agosto de 2020
Laís Taine - Grupo Folha 
Enquanto a comunidade científica ocidental discute a segurança da vacina russa, a reação da população interna divide-se entre desconfiados e otimistas. A médica brasileira Cynthia Valois Soster, 33, formada na universidade Kazan State Medical University, está radicada há dois anos na capital da República do Tartaristão, na Rússia, e conta a repercussão da notícia entre os russos.

“A população está com o pé atrás, mas têm pessoas otimistas também. O Ministro da Saúde, Mikhail Murashko, ressaltou que a vacinação vai ser voluntária. Quem quiser, pode fazer a vacinação de forma espontânea e que o fornecimento total aos russos seria em um ano. A população não sabe o que pensar muito, porque os dados foram muito baixos, anunciaram no início da fase três, quando só 38 pessoas haviam sido imunizadas”, relata a brasileira. O presidente afirmou que a filha também foi imunizada com a vacina.
No final do mês de julho, a vice-primeira-ministra do país, Tatiana Golikova, anunciou a pretensão de dar início à produção industrial da vacina em setembro. A vacinação em massa será realizada ao mesmo tempo em que os testes da fase três serão praticados, contrariando as metodologias científicas internacionais. “Ele está fazendo a terceira fase. Muita gente fala que a segunda onda da doença começa em outubro e eles querem acelerar o processo para esses voluntários estarem vacinados”, conta Soster.
O anúncio tem alto impacto político dentro e fora do país. “Faz pouco tempo que teve eleições aqui na Rússia, foi um grande conflito aqui, teve algumas mudanças na constituição que muita gente não aprovou. Mês passado, ele acalmou, anunciou muitos pacotes de ajuda para a população na pandemia e surpreendeu muita gente”, relata. Atenta aos noticiários brasileiros, a médica comenta a reunião entre embaixador da Rússia e governo do Paraná, fechando acordo para produzir a vacina no Brasil e ressalta que exige cuidado muito grande na produção. “Tem que ser congelada a -18ºC e quando é retirada do congelamento, deve ser utilizada em 30 minutos”, explica.
As observações sobre a vacina em si são diversas, mas a médica acredita que a própria comunidade científica nacional vê o processo com cautela. “Eles passam as informações, mas não tão completas, até por ser um tema muito novo, as pessoas estão indo com cautela”, afirma. “Eu estava olhando, é uma vacina muito parecida com a de Oxford, o que resta saber é o teste da terceira etapa. Eu esperaria um pouco mais essa terceira fase, se tivesse uma resposta, eu não teria medo de fazer”, acrescenta.
Sobre o país, a médica informa que o povo tem identidade muito forte e é bastante nacionalista, o que reflete na ambição e otimismo no nome Sputnik V à nova vacina. “Foi um satélite que surpreendeu o mundo inteiro e eles, com essa nova vacina, acham que é a possibilidade de surpreender o mundo de forma positiva novamente. O pensamento agora é todo positivo, os governantes estão otimistas, acreditam que vai dar tudo certo, que vai ser um ‘boom’ novo e de que vão pelo menos amenizar a situação da pandemia”, analisa.


