Paris, 26 (AE) - A França e a Inglaterra estão representando uma de suas peças favoritas: A detestação, sob o pano de fundo do ridículo. O "casus belli"?
São as vacas inglesas: essas infelizes criaturas contraíram uma doença horrorosa, a doença da vaca louca (encefalopatia espongiforme bovina) e existe o receio de que o mal se transmita aos seres humanos.
Durante vários anos, a carne inglesa foi proibida por todos os países europeus. Mas a Inglaterra aplicou medidas drásticas: 70 mil bovinos ingleses foram abatidos em quatro anos e a União Européia levantou o embargo contra a carne bovina britânica.
Mas a França, depois de observar que ainda foram registradas 1.300 vacas doentes na Inglaterra desde 1º de janeiro de 1999, se recusa a suspender o embargo. E então veio a guerra!
Em seu mais alto nível, o governo britânico analisou a possibilidade de proibir as carnes francesas, sob o pretexto (aliás real) de que na França o gado é alimentado com rações que às vezes contêm "impurezas de resíduos excretados por seres humanos e por animais" (que horror!).
O primeiro-ministro Tony Blair, que deseja mostra-se um "bom europeu", foi contrário a essa retaliação. Mas a ameaça paira sempre sobre a cabeça dos camponeses franceses. Existe o receio de que a Inglaterra se feche aos seus produtos. Mas é sobretudo na imprensa e nas ruas que a guerra se intensifica. Nos supermercados britânicos, os produtos franceses desaparecem ou vêem seus preços subir drasticamente.
Os restaurantes de Londres acrescentam a toda garrafa de vinho francês uma taxa pesada, que será revertida aos pobres pecuaristas ingleses. Nos mercados, croissants e queijos franceses, mostarda de Dijon, etc. estão passando por maus momentos.
Como acontece em todas as "crises de nervos" (que oscilam entre o "vaudeville" e o drama, entre Courteline e Shakespeare), os ingleses buscam ajuda apelando para a história: em Londres, um homem passou pela rua enraivecido, ameaçando mandar para Paris o general inglês Wellington, que derrotou Napoleão em Waterloo...
Podemos perceber que, por trás dos chifres destas infelizes vacas loucas, está oculto um outro debate: um confronto histórico entre as duas nações. Primeiro ponto: a Inglaterra foi invadida em 1066 por Guilherme o Conquistador, um normando vindo da França. Nos séculos seguintes, os dois países se defrontaram no mar porque possuiam as duas frotas mais poderosas do mundo.
Depois veio Napoleão, que aterrorizou a Europa inteira, antes de ser por sua vez derrotado pelos ingleses, depois confinado cruelmente na ilha de Santa Helena. No século 19, começou outra rivalidade: na áfrica e na ásia, as duas potências coloniais entravam em choque a todo instante.
E nenhum francês esqueceu Joana dArc, que "expulsou os ingleses da França" durante a Guerra dos Cem Anos, antes de ser queimada pelos ingleses em Rouen (por coincidência, acaba de ser lançado um grande filme francês, de Luc Besson, sobre Joana dArc e isso irá novamente irritar os ingleses!).
Há alguns anos, um pugilista francês, chamado Halimi, se defrontou num importante campeonato com um pugilista inglês, chamado Turpin. O francês venceu. Gritos de alegria no lado francês. E Halimi, levantando os dois braços sobre a cabeça, com os olhos fixos no céu, o semblante extasiado, exclamou; "Joana dArc, eu te vinguei!".

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