UTI: limite entre a ciência e a esperança
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de maio de 2005
Mara Vitorino<br>Especial para Folha 
Apesar de as Unidades de Terapias Intensivas (UTI) estarem cercadas pelo mito da morte iminente, a realidade desses locais não é tão trágica quanto parece. Uma estatística realizada pela UTI do Hospital Universitário da Universidade Estadual do Oeste (HU-Unioeste), em Cascavel, revela que o índice de sobrevivência é de 75%. Isto significa que cada 10 pacientes internados no setor, de dois a três morrem. Os demais saem vivos e com grandes chances de recuperação total.
Estes números, resguardadas algumas diferenças com outras casas de saúde, mostram o funcionamento de UTIs de hospitais públicos e privados. O assunto foi debatido durante o final de semana em Cascavel com representantes da Sociedade Brasileira de Terapia Intensiva e especialistas em tratamento intensivista.
O simpósio foi promovido com o objetivo de humanizar o atendimento, aprimorar o conhecimento e buscar formas de diminuir o stress dos profissionais , pacientes e, principalmente, das famílias. Familiares acompanham de perto a situação, mas nem sempre entendem o que significa a parafernália de aparelhos, cânulas e fios conectados ao corpo de seus parentes.
A servente Lusamira de Souza, 38 anos, de Nova Aurora (a 70 km de Cascavel) sabe descrever a angústia da espera. Há 48 dias ela visita, diariamente, o marido internado em estado muito grave na UTI do HU de Cascavel. ''Meu marido estava bem e de repente teve hemorragia, que acabou complicando o pulmão e o rim. Hoje ele nem se comunica mais, só fala com o olhar. É muito difícil ver quem a gente ama nesta agonia. A única coisa que posso fazer é rezar muito e aguardar uma melhora'', disse.
Com a doença do marido, Lusamira pediu licença do trabalho, hospedou-se na casa do irmão e hoje ela e os dois filhos do casal sobrevivem com R$ 300,00. ''Dou graças a Deus dele estar internado aqui, não sei o que seria da gente. Tenho esperança que ele vai sair da cama e voltar a trabalhar (marido era pintor). É no que me apego'', contou.
Lusamira, assim como outras famílias, tem uma hora diária, dividida às 11 e às 16 horas para presenciar a rotina do lugar e ver, em silêncio, seu parente conectado a vários aparelhos, que monitoram ou substituem sistemas orgânicos, todos com indicadores sonoros, que acusam o menor dos problemas. Sem exceção, as UTI têm barulho constante, luzes claras e movimentação de médicos e enfermeiros. ''Esta experiência tem dado força e fé para suportar. A gente não entende muito o que está acontecendo, mas sabe que é para o bem''.


