Usuárias do Twitter retomam discussão sobre assédio sexual

Entretanto, a seriedade do tema pode acabar criando um clima de "denuncismo" virtual

Vitor Struck - Grupo Folha
Vitor Struck - Grupo Folha

Enquanto moradores de Londrina ainda “digeriam” as notícias acerca de um mandado de busca a apreensão na cidade no escopo do inquérito que investiga a disseminação mecanizada de notícias falsas, outro “fenômeno” nascido nas redes sociais foi capaz de colocar o município entre os assuntos mais comentados no Twitter na tarde desta quinta-feira (28). Com o intuito de incentivar denúncias de assédio sexual e expor agressores, uma "hashtag" chegou a ser o segundo assunto mais comentado do País na rede social voltada para fotos, vídeos e pequenos textos e passou a ser praticada, também, por usuários de outras cidades, como Joinville (SC).

Usuárias do Twitter retomam discussão sobre assédio sexual
iStock
 


O movimento virtual, nascido em Curitiba nesta semana, retoma uma série de discussões que perpassam o fortalecimento da rede de apoio às vítimas e a educação sexual nas escolas, uma vez que a maioria dos relatos foi publicada por adolescentes e até professores aparecem como responsáveis por colocarem alunas em situações constrangedoras.  




“O tema tem que ser tratado nas escolas, temos que tratar do tema da violência sexual. Crianças e adolescentes precisam apreender que ninguém pode encostar neles sem a vontade deles. Falam que isso está estimulando as crianças a fazerem sexo, mas não, é orientação”, reforçou a delegada da Mulher de Londrina, Magda Hofstaetter. 


Questionada se a Polícia Civil vai entrar em contato com as autoras dos relatos ou investigar os agressores que tiveram os nomes expostos, pelo menos 42 homens, Hofstaetter, esclareceu que não, e aproveitou para reforçar que o correto é registrar um Boletim de Ocorrência. “Isso é temerário porque muitas postagens são feitas por outras pessoas que não as vítimas, até para se evitar problemas futuros tanto para elas quanto para as instituições”, esclareceu.  


Sobre este tema, a FOLHA também entrou em contato com uma adolescente de 16 anos que foi uma das primeiras a compartilhar relatos de vítimas de Londrina, entretanto sem divulgar os nomes dos agressores. Ela diz ser favorável à prática. De acordo com a jovem, alguns perfis foram criados e passaram a receber ameaças dos supostos agressores. Algumas destas ameaças, em áudios e imagens de conversas, também têm sido compartilhadas.  


Questionada, a jovem informou que a maioria das vítimas relata ter medo de levar os casos aos cuidados da Justiça. Outras dizem que procuraram ajuda na diretoria das escolas e nada foi feito. Entretanto, “ao verem várias denúncias e se identificarem com os relatos, elas tiveram a coragem e apoio que nunca tiveram antes”, disse a jovem. 


Ao mesmo tempo, o tema pode ganhar um caráter de denuncismo, o que pode expor inocentes a linchamento virtual. A jovem concordou que alguns nomes podem ter sido incluídos nas “listas” de supostos agressores sexuais por conta de brincadeiras de amigos, o que prejudica a discussão sobre o tema e configura outro crime, o de denunciação caluniosa. 


“Violência sexual não é brincadeira, não é piada. Esse movimento não deve ser usado dessa forma”, lamentou a delegada Magda Hofstaetter ao lembrar que existem pessoas que ainda tratam crimes sexuais como delitos de "menor importância".  


A Delegacia da Mulher de Londrina recebeu 19 denúncias de estupro entre janeiro e abril deste ano. Além disso, a reportagem também apurou que o Ministério Público ofereceu 90 denúncias de crimes sexuais à 6ª Vara Criminal de Londrina nos últimos 12 meses. Entretanto, esses números estão longe de revelar o número total de ocorrências e a gravidade do problema definido, muitas vezes, como fruto de uma “cultura do estupro”.  


Para que uma denúncia seja efetiva, lembrou o promotor Ronaldo Costa Braga, ela precisa chegar até o sistema de Justiça com o máximo de detalhes possível, entretanto, a palavra da vítima terá grande valor uma vez que, na maioria dos casos, é a única "testemunha" do crime. Braga também lembrou que o trabalho informativo com a população é muito importante já que 70% dos crimes são praticados por familiares das vítimas. “A exposição de casos de violência sexual pode encorajar outras mulheres a realizarem a denúncia, mas cada caso deverá ser investigado segundo os trâmites legais”, ressaltou. 




Em junho do ano passado, estudantes de um colégio da rede estadual realizaram um protesto após a deflagração da Operação Predadores na Rede, que cumpriu dois mandados de busca e apreensão nos bairros Capão Raso e Santa Quitéria, em Curitiba, contra um técnico de eletrônica e um professor da escola. Nesta época, um perfil no Instagram já havia sido criado pra dar vazão aos relatos e conta com mais de 900 seguidores. 

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