USP prepara dicionário para surdos
São Paulo, 02 (AE) - A Universidade de São Paulo (USP) está concluindo o primeiro dicionário de sinais para surdos da língua portuguesa. Até então, os deficientes auditivos tinham de recorrer a livros produzidos por grupos religiosos. "A universidade só despertou para o assunto recentemente, quando passou a usar a linguagem dos sinais para o desenvolvimento da educação da criança surda", explica Fernando Capovilla, professor de Neuropsicolinguística Cognitiva Experimental do Instituto de Psicologia da USP.
Além da deficiência auditiva, Capovilla explica que outras doenças provocam a perda da capacidade de comunicação. As lesões cerebrais resultantes de traumas, tumores, derrames, infecções e intoxicações são exemplos. "Criamos um sistema de multimídia baseado nos sinais do dicionário, com animação gráfica e voz digitalizada", diz.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há mais de 31 mil surdos em São Paulo e quase 174 mil em todo o País. Atualmente, os portadores dessa deficiência não podem ver televisão nem ir ao teatro, por falta de um sistema de tradução simultânea. No cinema, eles podem assistir apenas aos filmes estrangeiros com legenda.
O Dicionário de Língua Brasileira de Sinais traz 3,5 mil ilustrações e seus significados. Também há descrição morfológica
exemplos de seu uso na comunicação, definições e sinônimos.
Além disso, os sinais são registrados em uma escrita visual direta, e não alfabética, que foi especialmente criada nos Estados Unidos para a linguagem em sinais. Assim, como o alfabeto transcreve os sons da linguagem falada, essa escrita visual direta transcreve os movimentos das mãos.
Para Capovilla, o dicionário será uma fonte sólida de conhecimentos da língua de sinais e do português. "É um documento de grande valor para a cultura nacional e para o resgate da cidadania dos surdos", afirma o professor.
A coleta de dados para o dicionário começou há seis anos
observando e filmando sinais feitos por voluntários. A silhueta foi desenhada em estágios para compor a animação gráfica.
Há dois anos, o primeiro esboço do dicionário foi publicado. Com os recursos arrecadados com a venda desse esboço, Capovilla e seu grupo da USP puderam contratar informantes surdos para concluir o projeto. A Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos (Feneis-SP), a Cooperativa Padre Vicente (Copavi-SP), a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) apoiaram o projeto.
O dicionário está em fase final de produção, mas depende de patrocínio. "A Feneis, além de estar revisando cada sinal, também será responsável pela distribuição do dicionário em todo o território nacional", diz Capovilla.





