Pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) de Ribeirão Preto descobriram bactérias capazes de ‘‘comer’’ agrotóxicos que se depositam no solo e podem contaminar o lençol de água subterrâneo. A descoberta já foi embalada em cápsulas, como se fosse remédio, e deve chegar ao mercado dentro de três anos. A novidade será usada para despoluir o solo em áreas onde o uso de agrotóxico na agricultura coloca em risco a qualidade da água que corre abaixo da terra. O remédio é resultado de uma pesquisa de oito anos na região, que custou US$ 500 mil, feita em parceria entre a USP de Ribeirão Preto e a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).
A refeição das bactérias é um herbicida (veneno contra mato), conhecido entre os cientistas como atrazina, usado principalmente nas culturas de laranja e cana, predominantes na região. As bactérias, que ainda não receberam um nome, devoram parte do veneno (carbono e nitrogênio), deixando no solo somente os elementos químicos que não poluem. ‘‘A vantagem desse processo é que o remédio faz parte do solo e não é um agente estranho, que poderia provocar outro impacto ao meio ambiente’’, afirma Julieta Ueta, bioquímica da USP. Esse processo de limpeza é conhecido como ‘‘biorremediação’’ entre os pesquisadores, porque o despoluente tem vida própria. As cápsulas do remédio desenvolvido pela USP são recheadas com bactérias encontradas no solo da região de Ribeirão Preto.
Durante dois anos, os pesquisadores coletaram amostras de terra, em vários pontos, onde o aquífero Botucatu - maior reserva de água doce subterrânea do planeta - está mais próximo do solo. Depois de serem preparadas em laboratório, elas viajam de volta ao solo com a ajuda da água da chuva, que se infiltra na terra para reabastecer o lençol freático. Do mesmo modo, ocorre a contaminação da água por meio do agrotóxico. ‘‘Mais importante que o próprio remédio é a tecnologia nacional desenvolvida nesse estudo e que pode ser melhorada’’, diz o pesquisador Newton Lindolfo Pereira. Segundo o grupo de pesquisadores que trabalhou no remédio, ainda serão necessários mais dois anos para testar a aplicação da descoberta como despoluente. Isso porque, de acordo com Pereira, precisa ser definido o custo da utilização do medicamento e a dosagem adequada no solo.

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