Uso de pesticidas leva agricultores ao suicídio
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de setembro de 2000
Marwaan Macan-Markar Inter Press 
Uma pequena cidade do sul do Brasil se converteu em símbolo de uma tragédia silenciosa que abate as famílias camponesas dedicadas ao cultivo do fumo. Esse simbolismo se deve ao índice de suicídios entre a população de Venâncio Aires, no Estado do Rio Grande do Sul, sete vezes maior que a média nacional, 3 por cada 100 mil pessoas, diz a agrônoma Angela Cordeiro. Ela acrescenta que esse alto índice tem como causa o uso de pesticidas perigosos por parte dos plantadores de fumo da região. Os pesticidas organofosfatados utilizados em plantações de fumo contêm substâncias químicas notórias por seus efeitos neurológicos, causadoras de depressões que levam ao suicídio, explica Angela Cordeiro.
Esse diagnóstico foi confirmado por pesquisadores federais da Universidade do Rio Grande do Sul. Os estudos demonstram que a maioria dos suicidas da cidade gaúcha era de camponeses e que todos se mataram nos meses em que os pesticidas foram empregados nas plantações.
Esse fenômeno perturbador, segundo o movimento internacional de controle do tabaco, é apenas mais um no leque de problemas que afetam os trabalhadores das plantações de fumo. No México, por exemplo, a situação dos indígenas huichil, que trabalham nesses cultivos, é alarmante. Patricia Diaz Romo, uma ativista antitabagista mexicana, disse que o pior foi o impacto tóxico dos pesticidas em mulheres grávidas. Elas deram à luz crianças disformes que morreram pouco depois do nascimento.
Todos esses fatos foram relatados na XI Conferência Mundial sobre Saúde e o Tabaco, realizada em Chicago no princípio deste mês. Segundo Joshua Sharfstein, da Faculdade de Medicina da Universidade de Boston, os governantes não redirecionaram adequadamente seus programas de combate à intoxicação humana relacionada com pesticidas, em muitos casos por ignorância.
A Organização Mundial de Saúde observa que a avaliação do impacto global das enfermidades e lesões do trabalho é muito difícil, sendo escassa a informação disponível em países em desenvolvimento. Na América Latina, apenas de 1% a 4% das enfermidades do trabalho são registradas.
Angela Cordeiro enfatiza a necessidade de se mudar a cultura do silêncio. É preciso criar um sistema de vigilância na América Latina, Ásia e África para registrar o impacto dos pesticidas nos cultivadores de fumo.
O tabaco é cultivado em mais de 100 países, dos quais 80 pertencem ao mundo em desenvolvimento. A produção mundial multiplicou-se em países com médias e baixas rendas, segundo um relatório distribuído na Conferência de Chicago. Trinta e três milhões de pessoas trabalham nos campos de cultivo de tabaco.
Na China, o primeiro produtor mundial, perto de 15 milhões de pessoas trabalham nesse tipo de lavoura.


