Usinas de Araçatuba estudam oferecer energia em bloco à CPFL
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 26 de janeiro de 2000
Por Kelly Lima 
Ribeirão Preto, 26 (AE) - As usinas da região de Araçatuba (SP) estudam projeto para oferecer energia em bloco à Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL), a partir da criação de uma empresa que teria 25% das ações concentradas nas mãos das participantes e o restante nas de grupos estrangeiros interessados em arcar com o investimento com o objetivo de as capacitar para a cogeração.
A intenção dos empresários que pretendem formar a empresa é de que ela possua um prazo de contrato entre 15 e 20 anos de concessão aos investidores para a exploração da energia comercializada - após esse período, as usinas adquiririam gradualmente maior participação na gestão da empresa.
Atualmente, segundo o presidente da Uniálcool e da União das Destilarias do Oeste Paulista (Udop), Luiz Guilherme Zancaner, apenas a Univalem, entre as 21 usinas instaladas na região, possui condições de fornecer energia além do consumo próprio.
A Univalem comercializa parte da energia, 10 MW, cogerada para a empresa Ajinomoto, que é vizinha em Araçatuba. "Todas as usinas da região precisariam de um megainvestimento na compra de caldeiras eficientes para as tornar aptas a vender energia", disse.
Segundo ele, dois grupos estiveram na região visitando parte das usinas, mas, até o momento, nenhum contrato foi fechado oficialmente. Zancaner defende o investimento mínimo em cada usina para a compra de caldeiras de médio porte, entre R$ 30 milhoes e R$ 40 milhoes para cogeração acima de 10 MW. "De nada adianta investir R$ 10 milhoes para gerar quantidades pequenas que não retornem em lucro", comentou. Ele defendeu ainda a possibilidade de um subsídio do governo sobre o preço da energia cogerada a partir do bagaço para que as usinas conseguissem investir no setor.
"O subsídio poderia ter um prazo predeterminado para ajudar o setor e promover um segmento estratégico no País, que está precisando de investimentos", comentou. A CPFL e um bloco com pelo menos oito usinas de cana-de-açúcar do Estado de São Paulo devem fechar nas próximas semanas contrato inédito para a comercialização de energia proveniente do bagaço de cana.
O fator inédito do contrato deve-se a dois pontos: o primeiro é que a energia será comercializada em bloco pelas usinas participantes do contrato, o que prevê a substituição de um fornecedor por outro, em caso de falta do produto, garantindo maior tempo de abastecimento.
Já o segundo ponto, que interessa principalmente às usinas, é a certeza de que o volume adquirido pela CPFL vai aumentar gradualmente no decorrer do prazo previsto pelo contrato, que será inicialmente de três anos.
A expectativa é de que, em 2000, o bloco forneça para a CPFL 10 MW, que podem chegar a 100 MW em 2001. O valor envolvido no negócio só será divulgado no momento da assinatura do contrato, o que deve acontecer em fevereiro.
A Coopersucar, que vai concentrar a comercialização da energia em bloco das usinas, ainda pode incluir outras três empresas no negócio. Já estão confirmadas as participações das Usinas Santa Cruz, de Américo Brasiliense; São Francisco, de Pradópolis; Santo Antônio, de Sertãozinho; São Carlos e Santa Adélia, as duas de Jaboticabal; Nossa Senhora Aparecida, de Itapira; da Pedra, de Serrana, e Barra Grande, de Barra Bonita.
Segundo o diretor de Comercialização da CPFL, Oswaldo Feltrin, a companhia está tentando negociar junto a bancos e financeiras a criação de linhas de crédito específicas para os investimentos no setor, ou mesmo grupos estrangeiros que tenham interesse em apostar na cogeração de energia a partir do bagaço da cana-de-açúcar.
"Desde a desregulamentação da energia, esse é um setor que tem se destacado muito para novos investimentos", comentou. Ele diz que, segundo cálculo da companhia, o interior do Estado de São Paulo teria condições de gerar cerca de 619 MW a partir do bagaço de cana, mas os investimentos necessários para chegar a este volume variam entre R$ 10 milhoes a R$ 60 milhões em cada uma das usinas.
Atualmente, a CPFL recebe menos de 0,5% de energia cogerada a partir da cana. A intenção da companhia é de aumentar este volume para 7% num período de três anos. Paralelo ao megacontrato que pretende fechar para a comercialização de energia em bloco com as usinas da Coopersucar, a CPFL está fechando o cerco ao redor das demais unidades no interior de São Paulo para compras individuais de energia cogerada a partir do bagaço da cana.
A próxima delas deverá ser a duplicação do volume comercializado pela Companhia Energética Santa Elisa, que hoje vende 7,5 MW e passaria a comercializar 15 MW a partir de 2001.
O contrato seria feito, segundo Feltrin, nos mesmos moldes do contrato assinado no fim de 1999 com a Usina Vale do Rosário, que vai aumentar até 2001 a participação na matriz energética da CPFL de 15 MW para 30 MW.
Os dois contratos possuem prazos mais longos, entre dez e 15 anos. "O fato de assinarmos contratos com prazos mais longos permite ao empresário visualizar retorno para o seu investimento com o decorrer do tempo e a venda de energia nesse período", acredita Feltrin.
Ele admite que o preço pago pelo setor pelo MW, entre R$ 41 e R$ 55 ainda fica aquém do esperado pelo empresário, que investe até R$ 60 milhões para passar a fornecer energia à companhia.
"Mas esse valor poderia aumentar de acordo com as garantias dadas pelas usinas de continuidade no fornecimento dessa energia", argumentou. Segundo ele, a grande discussão que ainda permeia o setor diz respeito ao período de fornecimento da energia, que é suspenso na entressafra.
As usinas, em média, são capazes de fornecer energia por um período contínuo de 205 dias. Algumas alcançam um período de 230 dias e, por isso, têm condições de negociar melhores preços.
A falta de subsídios para o setor e a crise pela qual passou o segmento sucroalcooleiro, com redução de colheita de cana prevista em torno de 15% este ano, fez com que a Companhia Energética Santa Elisa revisse planos de investimentos em cogeração de energia.
Apesar de estar praticamente fechado contrato entre a empresa e a CPFL, que vai aumentar o fornecimento de 7,5 MW para 15MW a partir de 2001, a Santa Elisa reduziu projeto de investimentos de R$ 60 milhões para R$ 18 milhões.
Segundo o empresário Maurílio Biagi Filho, presidente da Santa Elisa, o projeto de investimentos na cogeração vinha sendo preparado nos últimos três anos e deve ser apresentado nas próximas semanas ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), maior financiador do setor.
"Com o passar do tempo, a descapitalização do setor e a previsão de queda na produção, que também reduz o volume de bagaço, comprometeu diretamente os nossos planos", disse ele. A intenção anterior da Santa Elisa era acrescentar mais 80 MW à produção, que hoje é de 10 MW.
Mas, com a redução dos investimentos, o aumento será de mais 30 MW. Biagi acredita que, se a CPFL mantiver o preço pago de R$ 55 por MW, o restante a ser produzido deverá ser negociado com a própria companhia.


