Lima, 14 (AE-AP) - A organização civil independente Transparência denunciou hoje (14) a existência de mais votos registrados nas atas eleitorais do que o total efetivamente depositado nas urnas nas eleições de domingo no Peru, e exigiu novas regras do jogo para garantir a limpeza do segundo turno da disputa presidencial.
A Transparência ressaltou que um informe oficial do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (Onpe), divulgado quando haviam sido tabulados 86,77% dos sufrágios, mostrava que 9.282.464 pessoas haviam votado, mas, ao mesmo tempo, contabilizava 10.659.792 votos. Essa diferença de cerca de 1,4 milhão é maior que a vantagem que, segundo os dados oficiais, o presidente Alberto Fujimori obteve sobre o oposicionista Alejandro Toledo.
"Essa discrepância só pode vir de duas fontes: alguém que aumentou os votos para alterar a ata, ou alguém que acrescentou votos nas urnas de forma fraudulenta", disse o secretário-geral da Transparência, Rafael Roncagliolo.
Ele explicou que a lei eleitoral de 1997 permite a tabulação de mais votos do que votantes como um erro de contabilidade. "Essa lei é um desastre total", afirmou, qualificando de "clandestino" o processo de cômputo dos votos. O Onpe alegou que os membros das mesas erraram na contagem.
A Transparência pediu uma administração eleitoral "imparcial, independente e tecnicamente irrepreensível" no segundo turno entre Fujimori e o Toledo, que deve ser realizada no fim de maio ou início de junho.
"Se se repetirem as condições do primeiro turno, será algo impossível de validar", advertiu o chefe da missão observadora da Organização dos Estados Americanos (OEA), o ex-chanceler guatemalteco Eduardo Stein. Entretanto, Stein assinalou que os números oficiais são "consistentes" com contagens paralelas feitas por sua equipe (sobre a qual não deu detalhes) e pela Transparência (que mostrava Fujimori com 48% e Toledo com 41%).
A Transparência informou ter recebido mais de 600 denúncias de irregularidades relativas ao primeiro turno, que "não cumpriu nenhum dos requisitos mínimos de um processo democrático - regras claras e estáveis, neutralidade do Estado, competição legítima, confiança e credibilidade nos organismos eleitorais e sistema de contagem eficaz, acessível e verificável".
Fujimori garantiu que não houve fraude e ficou contente com a votação que obteve domingo. "Fiquei satisfeito com a contagem final que me dá uns 49,9% dos votos, depois de dez anos de governo num país com problemas complicados", afirmou ele à Associated Press na noite de quinta-feira, em sua primeira entrevista desde o primeiro turno. Fujimori criticou o "manejo das massas" por Toledo e advertiu que as propostas do adversário "levam ao rompimento do equilíbrio e estabilidade macroeconômica obtidos com grandes esforços".
Já Toledo desafiou Fujimori para um debate e pediu várias mudanças para o segundo turno, incluindo a troca do "desacreditado" pessoal técnico do Onpe. "Sem fraude, Fujimori não vence", afirmou.

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