Urbanização exige mudanças na AM
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 28 de outubro de 1997
Ulisses Capozzoli Agência Estado 
Arquivo FolhaRessentimentoO ministro Gustavo Krause, do Meio Ambiente, fez um discurso sem conteúdo e com referências ressentidas ao SulDesde 1990, quando foi o criado o Programa Piloto para Proteção de Florestas Tropicais (PPG-7), financiado pelos sete países mais ricos do mundo, dois milhões de pessoas da Amazônia trocaram a floresta pelas cidades. Atualmente, dois terços da população amazônica vivem nas cidades. Os dados foram divulgados ontem, por Roberto Smeraldi, da organização não governamental (ONG), Amigos da Terra, no segundo dia de debates da 4ª Reunião Anual do PPG-7, em Manaus.
Esse processo de urbanização exige uma mudança imediata no conjunto de programas voltados para a Amazônia, entre eles mais de uma centena financiados pelo PPG-7. De acordo com Smeraldi, os dados oficiais sobre desmatamento e, por extensão, sobre queimadas na região, estão desatualizados e as projeções para este ano são bastante pessimistas.
Os trabalhos de ontem foram um pouco monótonos, exceto por algumas intervenções mais críticas. O governador do Amapá, João Alberto Capibaribe, por exemplo, numa exposição firme, criticou a centralização de idéias e ações, tanto por parte do Banco Mundial que gerencia os recursos dos países doadores, como o governo federal. Alinhou meia dúzia de exemplos de desburocratização na área de desenvolvimento sustentável - sem prejuízo de continuidade para os recursos explorados - que já facilitam a vida das pessoas em seu Estado.
Capibaribe também argumentou que sem erradicação da pobreza não há como gerir satisfatoriamente o ambiente, até porque o homem não existe isolado da natureza. Antes de Capibaribe falou o ministro do Meio Ambiente, Gustavo Krause. O ministro fez um discurso sem conteúdo e com referências ressentidas às regiões Sul e Sudeste, ao dizer que com o PPG-7 aprendemos a ter um outro olhar para a Amazônia.
O ex-ministro do Meio Ambiente, José Lutzenberg, presente à reunião, disse estar decepcionado especialmente em relação às palavras de Krause. O que eles estão querendo é só pegar o dinheiro dos doares, sem tomar medidas concretas, desabafou. Para Lutzenberg, abrir as florestas nacionais, praticamente intactas, a exploração madeireira é uma política de rapinagem.
O índio marubo, Darci Comapa Marubo, numa intervenção improvisada, disse que os povos indígenas estão interessados no desenvolvimento sustentável e querem ser ouvidos. Darci vive no Vale do Javari, região amazônica vizinha às fronteiras com Peru e Colômbia e área mais rica em recursos madeireiros de toda a região. Lá, sobrevivem grupos indígenas ainda não contatados. A região tem conflitos violentos em torno da pesca e exploração madeireira ilegais.
Manaus amanheceu coberta pela fumaça de queimadas ontem. Durante toda manhã a cidade lembrava um dia de elevada poluição em São Paulo. Esta é a época do preparo de terras para plantio e abertura de áreas periféricas e pobres para construção de novas moradias.


