Universitário poderá fazer sua grade curricular
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sexta-feira, 02 de abril de 1999
Por Sandra Sato e Sônia Cristina Silva 
Brasília, 03 (AE) - Os universitários poderão, no futuro
optar por fazer um curso com formação dirigida à licenciatura, à pesquisa ou simplesmente ao bacharelado profissionalizante, desde o primeiro semestre. Essa mudança está na proposta das diretrizes curriculares para o ensino superior a ser apresentada até o fim de abril ao Conselho Nacional de Educação. Atualmente o aluno é obrigado a cumprir um currículo mínimo comum, independentemente de sua área de interesse.
Mesmo depois de aprovadas as diretrizes, as universidades e faculdades serão livres para decidir se vão ou não aderir à mudança. Se optarem pela reformulação, terão liberdade de compor a carga horária dos cursos a partir de orientações básicas, livrando-se das amarras do atual currículo mínimo nacional, considerado "excessivamente rígido" pelo próprio Conselho Nacional de Educação (CNE). A atual programação curricular é estática e cheia de disciplinas, dificultando a adaptação aos avanços da tecnologia e exigências do mercado.
Pela nova diretriz do MEC, um aluno de física, por exemplo, poderá, desde o início do curso, escolher entre ser professor, pesquisador ou bacharel. Hoje, somente no fim o estudante que quer ser professor pode fazer disciplinas adicionais de licenciatura. O aluno deixa de aceitar disciplinas já programadas podendo participar da formulação da grade curricular de acordo com o tipo de formação que deseja.
E se o aluno concluir que a escolha feita no início do curso não foi a melhor? "Será permitido mudar de rota a qualquer momento", assegura o diretor do Departamento de Políticas do Ensino Superior do MEC, Luiz Roberto Liza Curi. Curi defende a oferta de estágios, logo no início do curso, para facilitar a escolha do aluno com base no conhecimento da rotina que enfrentará como profissional. Com os estágios, acredita o diretor, o estudante terá condições de definir sua formação no máximo até o segundo semestre.
"Os estágios passam a ser inseridos nos cursos precocemente", afirma o coordenador do projeto de reforma dos currículos e assessor do MEC, Rubens de Oliveira. Algumas universidades se anteciparam e já testam o novo método, como é o caso da estadual de Londrina, onde os alunos de medicina frequentam os ambulatórios desde o primeiro ano.
"O importante é que essa reforma tem como eixo o aluno", afirmou Mozart Ramos, reitor da Universidade Federal de Pernambuco e presidente da Comissão de Desenvolvimento Acadêmico da Associação dos Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes). "O aluno deve ter condições de construir sua própria formação."
Inovação - A proposta de diretriz curricular define o perfil e as habilidades que o aluno deve apresentar ao fim do curso. A intenção é preparar um profissional dinâmico, adaptável às constantes demandas do mercado de trabalho. A instituição deve reduzir a evasão, criando sistemas atrativos. O aluno deve ser estimulado a desenvolver sua criatividade e análise crítica por meio de programas de iniciação científica. A diretriz também orienta para a valorização da ética profissional e de valores de cidadania.
A diretriz enumera ainda os conteúdos básicos de cada curso que precisam ser vistos em sala de aula, mas promete dar espaço para adaptações a realidades locais e atividades complementares. Além do estágio, o MEC quer incentivar os trabalhos em grupo, para revelar desde cedo talentos para cooperação e liderança, por exemplo. Defende, ainda, que essas atividades extraclasse contem como cumprimento da carga horária dos cursos.
Com a reorganização dos currículos, segundo as diretrizes, a tendência é reduzir o tempo de duração dos cursos porque se tornarão mais dinâmicos e específicos.Entre as propostas de diretrizes já prontas, por exemplo, os cursos de administração seriam concluídos em três anos e meio e não em quatro, como hoje. Os cinco anos para contabilidade noturna devem cair para quatro, o mesmo período do curso diurno. O único que até agora aumentou a carga horária foi o curso de fisioterapia, que passaria de quatro para cinco anos, a pedido dos conselhos de classe.
As diretrizes curriculares estão sendo definidas em parceria com a comunidade acadêmica e a profissional. As instituições de ensino superior e conselhos de classe foram convidados a apresentar propostas. As Comissões de Especialistas do MEC, criadas para cada área, estão analisando as sugestões e vão resumi-las numa proposta única por curso que será debatida em audiências públicas no Conselho Nacional de Educação (CNE), provavelmente a partir de maio.
As comissões de especialistas já concluíram versões de diretrizes curriculares para 16 cursos e outras 11 estão em fase de discussão. Foram concluídas as propostas para os cursos de ciências contábeis, econômicas e sociais, de arquitetura, física
história, letras, pedagogia e serviço social, entre outros. Mas há cursos que nem começaram a ser discutidos, como oceanografia, direito, filosofia e medicina. A burocracia federal atrapalhou o processo. Entre setembro e outubro, o MEC ficou sem dinheiro para pagar as diárias dos integrantes das comissões de especialistas.
Docentes - "A proposta pode ser um avanço", diz o presidente da Associação Nacional dos Docentes de Instituições Federais de Ensino Superior, Renato Oliveira. "Mas é preciso que as instituições federais tenham segurança para implementar as mudanças", advertiu. Segundo ele, é preciso equacionar o problema de falta de docentes qualificados em algumas instituições, melhorar a infra-estrutura de pesquisa e resolver de vez a polêmica sobre a regulamentação da autonomia. "Esses tópicos dão a base para a mudança", disse Oliveira.
"As instituições contarão com linhas de fomento do MEC para financiar tecnologias necessárias à adoção de currículos inovadores", promete Luiz Roberto Liza Curi. De acordo com Curi
as instituições hoje mais estruturadas - com tradição em pesquisa, pessoal qualificado e equipamentos - vão ganhar porque serão capazes de diversificar a oferta e explorar ainda mais suas vocações. Para as menos favorecidas será uma chance de tornar os cursos mais flexíveis.


