As universidades públicas brasileiras estão um passo à frente do Ministério da Educação. Enquanto o ministro Paulo Renato de Souza tenta aprovar no Congresso o projeto de autonomia universitária, que implica na geração de recursos próprios por parte das instituições, as universidades públicas, na prática, já estão trabalhando duro para ter uma fonte de receita independente do repasse de verbas federais ou estaduais.
De certa forma, foi a própria política governamental de moderação no repasse das verbas que fez com que as universidades começassem a procurar alternativas financeiras que pudessem evitar a falência. As três principais instituições do Rio - Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal Fluminense (UFF) e Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) - vivem situações semelhantes. Falta dinheiro para investir em pesquisa, manutenção adequada de suas unidades e para pagar serviços terceirizados, como segurança e limpeza.
Cansadas da dependência financeira exclusiva dos repasses governamentais, as três universidades estão fazendo de tudo para conseguir fontes próprias de receita através de parcerias com a iniciativa privada, desimobilização patrimonial e prestação de serviço. ‘‘A gente está tendo de ir para a rua buscar o dinheiro’’, afirmou Antônio Celso Alves Pereira, reitor da UERJ, universidade que tem 30% de seu orçamento com geração própria de recursos.
A mesma política tem sido posta em prática pela UFRJ, que está tentando criar um fundo de valorização patrimonial, proposta em estudo na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), para criar uma sólida fonte de renda. Porém, em relação ao repasse de verbas, a universidade está numa posição inversa à da UERJ. Segundo o sub-reitor patrimonial e financeiro, Luiz Otávio Figueiredo Façanha, o repasse cobre apenas 37% do custeio da UFRJ.
Tal situação tem levado algumas de suas unidades ao desespero. Precisando de reformas e consertos estruturais urgentes e sem o dinheiro disponível para fazê-los, a Escola de Química tomou uma decisão inédita: pedir uma contribuição esporádica de R$ 250,00 a seus alunos. Porém, as dificuldades financeiras das unidades são tantas que não houve papel e envelopes suficientes para enviar o pedido de auxílio emergencial para todos os seus 1.350 alunos. ‘‘Só tivemos como enviar a carta para 30% do alunato’’, lamentou Nei Pereira Júnior, vice-diretor da Escola.
A proposta, que segundo a classificação do sub-reitor Façanha é um ‘‘fato isolado’’ teria tido o respaldo de toda a Congregação, inclusive dos alunos. ‘‘O DA (Diretório Acadêmico) vai administrar o dinheiro arrecadado junto conosco’’, afirmou Pereira Júnior. Ele ainda acrescentou que o perfil dos alunos é compatível com o pedido. ‘‘Grande parte vem de famílias abastadas’’.
É justamente tentando evitar pedir ajuda financeira a seus alunos que a UFF está tentando aumentar a geração de receita própria, que hoje está próxima da faixa dos 10%. ‘‘Não chegamos a este ponto ainda, mas estamos perto disto’’, afirmou Walter Pinho da Silva Filho, pró-reitor de panejamento da universidade, que, recentemente, precisou reduzir gastos com segurança mesmo correndo risco de aumentar os furtos em suas unidades.

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