Universidade de Buenos Aires projeta banco para pobres
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terça-feira, 04 de maio de 1999
Por Ariel Palacios, especial para a AE (assinatura obrigatória) 
Buenos Aires, 05 (AE) - Deixar de ser pobre é possível? Talvez, especialmente se alguém emprestar dinheiro para poder sair da pobreza. Mas quem concederia um crédito para alguém que poderia ser catalogado como indigente? Um banco para indigentes. Essas perguntas e respostas foram feitas por uma equipe da Universidade de Buenos Aires (UBA), que está estudando a criação de um banco que empreste dinheiro à pessoas em situação de extrema pobreza.
O projeto inspira-se no Grameen Bank, de Bangladesh, que empresta para os pobres desse país, e que no último ano recuperou 95% dos US$ 500 milhões emprestados. Os micro-créditos são a base deste banco, criado há 22 anos pelo economista Muhammad Yunus. O Grameen Bank, que nasceu em um vilarejo de 42 habitantes, hoje trabalha em 39 mil aldeias de Bangladesh, e até o momento beneficiou 2,5 milhões de pessoas com seus mini-empréstimos. O banco possui 1.082 sucursais e 13 mil funcionários.
O Grameen Bank não tem o lucro como objetivo, mas em 1998 teve um superávit de US$ 1 milhão.
O banco não exige avalistas, só pede juros de mercado, e não precisa recorrer à Justiça para obter de volta o dinheiro emprestado. Os planos de pagamento são de 50 semanas. O segredo do sucesso desta inusitada entidade bancária é que o sistema de empréstimos é coletivo: para ter o crédito, uma pessoa precisa formar um grupo com outras quatro que também queiram empréstimos. A pessoa será o "presidente" deste grupo que solicitou o crédito, e também a última que o receberá. A condição será que seus amigos paguem por seus respectivos empréstimos.
Segundo Yunus, o sistema não somente se baseia na confiança, mas também na solidariedade. Atualmente, a média do valor dos créditos é de US$ 180. Na década passada, a média era de US$ 27.
Mas, o que funcionou em Bangladesh poderia funcionar na Argentina, Brasil, ou qualquer outra parte do mundo? "Sim", de acordo com Yunus.
Em uma recente visita à Argentina, afirmou que "as similaridades entre os pobres de todo o mundo são maiores que suas diferenças".
A UBA já criou o Departamento de Banco Social paras o Micro-crédito, que dará empréstimos com juros baixos e sem pedir garantias às pessoas pobres. Pablo Broder, professor de Economia da UBA é o coordenador do projeto, que em uma primeira fase pretende trabalhar em um bairro de Buenos Aires, um subúrbio da Grande Buenos Aires, um município da Grande Rosario e um município da Patagônia.
Apesar do entusiasmo com o projeto, Broder tem um temor, e não é concernente aos possíveis clientes do banco: são a burocracia e a rigidez das leis bancárias argentinas, que poderiam obstaculizar a ajuda aos mais pobres do país, que segundo os recentes dados do Banco Mundial, chegariam a 10 milhões de pessoas, além de outros 3 milhões que podem ser considerados indigentes.
Broder admite que será difícil fazer que um milhão de argentinos deixe de ser pobres, mas sustenta que "se puder melhorar a vida de 10 mil pessoas, fico bem contente".


