Unita acusa Brasil de vender armas para governo angolano De Jair Rattner, especial para a AGÒNCIA ESTADO
Lisboa, 09 (AE) - Com o recomeço da guerra civil em Angola, o Brasil está sendo acusado de violar o embargo da ONU à venda de armas ao país. Quem acusa é a Unita (União para a Independência Total de Angola) o movimento guerrilheiro que luta para derrubar o atual governo do país.
A prova das acusações são cinco veículos ligeiros de transporte de tropas produzidos no Brasil, capturados na cidade de Banzacongo, durante sua última ofensiva no norte do país, no final de janeiro.
"São os chamados paquitos, que levam tropas e têm uma metralhadora pesada", conta Rui Oliveira, do Centro para o Desenvolvimento e Democracia em Angola - o nome assumido pelo movimento em Portugal depois de ter sido colocado na ilegalidade devido às sanções da ONU.
Segundo Oliveira, a Avibrás também está fornecendo aviões do modelo Tucano modificados para que sejam utilizados em ataques contra os guerrilheiros. Originalmente, os Tucanos são aviões de treinamento, mas sua versão militar conta com mísseis ar-terra, que também são vendidos pela empresa.
"Esses foguetes foram concebidos para combate contra guerrilheiros que estão nas matas. O míssil explode nas copas das árvores, liberando 1.800 pregos que atingem tudo o que está em baixo".
"Apesar de serem aviões mais lentos do que os MiG 23 e os Sukhoys, de fabricação russa, os Tucanos têm maior utilidade para acompanhar comboios militares. Eles conseguem ficar mais tempo junto dos comboios, assim como os helicópteros", diz Oliveira.
A guerra civil reiniciou no mês de dezembro, com os dois lados acusando-se de terem reiniciado as hostilidades. O governo admitiu que não conseguiu tomar a cidade do Andulo e perdeu Banzacongo, uma cidade estratégica próxima da região petrolífera do Soyo - a principal riqueza do país.
As reclamações de Oliveira também atingem a construtora Odebrecht: "Quando foi assinado o protocolo de paz de Lusaka, em 1994, ficou estabelecido que nós entregaríamos o controle das minas de diamantes da região das Lundas para o governo, mas teríamos uma participação acionista nas empresas que exploram os diamantes. O governo entregou a concessão das minas à Odebrecht e não temos nenhuma parte. A Odebrecht também conseguiu a concessão do abastecimento logístico das forças da ONU sem nenhuma concorrência".
Oliveira afirma que vem dos diamantes a grande parte do financiamento da Unita. "Nós controlamos as Lundas durante três anos. Mas temos apoios em áfrica". Calcula-se que o orçamento anual da Unita atinja os 300 milhões de dólares - maior do que o de muitos países africanos.
Neste momento, a Unita reivindica ter o controle de 70% do território de Angola. "O governo controla as cidades, mas nos campos nós temos a hegemonia".
Com 37 anos de lutas, Angola é o palco da mais longa guerra deste século. Os conflitos começaram em 4 de fevereiro de 1961, contra o domínio colonial português. Seis meses antes da independência, em junho de 75, iniciou-se a guerra civil.
Já houve quatro acordos de paz, em 75, 88, 91 e 94, mas todos foram desrespeitados. Em 1992, houve eleições para deputados e presidente - reconhecidas pela ONU como legítimas -, com uma vitória do MPLA, o atual partido do governo. No entanto, a Unita alegou fraude e antes da realização do segundo turno das presidenciais, a guerra civil recomeçou.





