O Brasil não reconhece o devido valor do educador Paulo Freire, morto em maio do ano passado, e deveria ampliar no País a aplicação dos métodos desenvolvidos pelo pedagogo. Esta é a opinião de Ana Catarina Braga, coordenadora da área de educação da Fundo das Nações Unidas Para a Infância (Unicef). ‘‘A repercussão de seu trabalho no País não é a merecida’’, disse ela, lamentando que o trabalho do educador repercuta mais no exterior do que internamente. ‘‘É o maior pedagogo que o Brasil já teve e deveria ser mais valorizado’’, afirmou.
O método de ensino criado pelo educador é não só reconhecido pelo Unicef mas é o mais recomendado pelo organismo para ser adotado em outros países. ‘‘Toda proposta que universaliza o direito à educação será uma bandeira das Nações Unidas’’, afirmou Ana Catarina, que apoiou ontem, durante a Conferência Nacional Por uma Educação Básica no Campo, em Luziânia (Goiás), moção para que o método Paulo Freire seja adotado em todas as escolas públicas do país.
São poucas as escolas que adotam os métodos do pedagogo no Brasil. ‘‘É utilizado principalmente nas escolas de resistência’’, disse Ana Catarina, referindo-se às escolas comunitárias, em assentamentos rurais e de meninos de rua. ‘‘Seu trabalho é ignorado não só pelas políticas públicas de ensino como pelas universidades’’, afirmou o professor Bernardo Mançano Fernandes, da Universidade Estadual de São Paulo, adepto dos ensinamentos do educador.
A metodologia desenvolvida por Freire foi muito utilizada em campanhas de alfabetização. ‘‘Ele introduziu nos conteúdos escolares a realidade de cada um, que capacita o aluno não só a ler e a escrever mas que lhe dá consciência política’’, disse Ana Catarina. ‘‘Pelo método, o processo de alfabetizar não é fracionado, como o ‘‘a’’ é de abelha, o ‘‘p’’ é de pato. A idéia é trabalhar, por exemplo, o nome completo do aluno. É a formação do indivíduo em primeiro lugar’’, explicou o professor Mançano.
Acusado de subverter a ordem, Paulo Freire foi preso pelo regime militar em 1964. Depois de 72 dias de reclusão, exilou-se no Chile, onde desenvolveu durante cinco anos programas de educação de adultos, e escreveu ‘‘Pedagogia do Oprimido’’, sua principal obra. Foi consultor de educação em outros países do Terceiro Mundo, e retornou ao País em 1980. Foi secretário municipal da prefeitura de São Paulo, na gestão de Luiza Erundina.
Segundo o coordenador nacional de educação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), Edgar Kolling, as cerca de mil escolas do MST usam as práticas de Freire. Ele citou como exemplo o calendário histórico adotado pelo movimento e ensinado aos quase 70 mil alunos dos assentamentos. É quase uma centena de datas, como o nascimento de Che Guevara ao massacre da Calendária ou ao assassinatos de sem-terra em Eldorado dos Carajás, no Pará. ‘‘São momentos de reflexão, em que passamos valores como a luta de seu povo até a última consequência, disse Kolling. ‘‘É puro Paulo Freire’’, afirmou.

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