Unicef insiste no método Paulo Freire
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 31 de julho de 1998
Evandro Éboli Especial para a AE 
O Brasil não reconhece o devido valor do educador Paulo Freire, morto em maio do ano passado, e deveria ampliar no País a aplicação dos métodos desenvolvidos pelo pedagogo. Esta é a opinião de Ana Catarina Braga, coordenadora da área de educação da Fundo das Nações Unidas Para a Infância (Unicef). A repercussão de seu trabalho no País não é a merecida, disse ela, lamentando que o trabalho do educador repercuta mais no exterior do que internamente. É o maior pedagogo que o Brasil já teve e deveria ser mais valorizado, afirmou.
O método de ensino criado pelo educador é não só reconhecido pelo Unicef mas é o mais recomendado pelo organismo para ser adotado em outros países. Toda proposta que universaliza o direito à educação será uma bandeira das Nações Unidas, afirmou Ana Catarina, que apoiou ontem, durante a Conferência Nacional Por uma Educação Básica no Campo, em Luziânia (Goiás), moção para que o método Paulo Freire seja adotado em todas as escolas públicas do país.
São poucas as escolas que adotam os métodos do pedagogo no Brasil. É utilizado principalmente nas escolas de resistência, disse Ana Catarina, referindo-se às escolas comunitárias, em assentamentos rurais e de meninos de rua. Seu trabalho é ignorado não só pelas políticas públicas de ensino como pelas universidades, afirmou o professor Bernardo Mançano Fernandes, da Universidade Estadual de São Paulo, adepto dos ensinamentos do educador.
A metodologia desenvolvida por Freire foi muito utilizada em campanhas de alfabetização. Ele introduziu nos conteúdos escolares a realidade de cada um, que capacita o aluno não só a ler e a escrever mas que lhe dá consciência política, disse Ana Catarina. Pelo método, o processo de alfabetizar não é fracionado, como o a é de abelha, o p é de pato. A idéia é trabalhar, por exemplo, o nome completo do aluno. É a formação do indivíduo em primeiro lugar, explicou o professor Mançano.
Acusado de subverter a ordem, Paulo Freire foi preso pelo regime militar em 1964. Depois de 72 dias de reclusão, exilou-se no Chile, onde desenvolveu durante cinco anos programas de educação de adultos, e escreveu Pedagogia do Oprimido, sua principal obra. Foi consultor de educação em outros países do Terceiro Mundo, e retornou ao País em 1980. Foi secretário municipal da prefeitura de São Paulo, na gestão de Luiza Erundina.
Segundo o coordenador nacional de educação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), Edgar Kolling, as cerca de mil escolas do MST usam as práticas de Freire. Ele citou como exemplo o calendário histórico adotado pelo movimento e ensinado aos quase 70 mil alunos dos assentamentos. É quase uma centena de datas, como o nascimento de Che Guevara ao massacre da Calendária ou ao assassinatos de sem-terra em Eldorado dos Carajás, no Pará. São momentos de reflexão, em que passamos valores como a luta de seu povo até a última consequência, disse Kolling. É puro Paulo Freire, afirmou.


