O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) está organizando o Movimento Global, um trabalho que terá o objetivo de tentar cobrar de entidades, empresas e governos programas sociais para a melhoria da qualidade de vida das crianças.
A advogada Carol Bellamy, que acabou de ser reconduzida ao cargo de diretora mundial do Unicef, esteve no Brasil na última semana para apresentar o movimento – uma aliança de organizações não-governamentais (ONGs), governantes e empresários.
O Movimento Global será lançado em 2001, antes do Encontro Mundial para as Crianças, que irá avaliar o que os governos cumpriram das promessas feitas há dez anos, no primeiro evento.
‘‘Fazendo alianças podemos ter uma maior pressão social sobre os que podem agir para fazer diferença. O que estamos querendo dizer é: Não é o suficiente apenas fazer promessas’’, afirmou Carol, que ficará mais cinco anos como diretora do Unicef.
Leia os principais trechos da entrevista concedida pela diretora à reportagem na última semana.
No próximo ano, haverá uma reunião na ONU para avaliar o cumprimento das metas sobre qualidade de vida das crianças estabelecidas há dez anos. Nesse período, o que mudou?
Carol Bellamy Há diferenças muito grandes nas diversas regiões. Nas Américas e no Caribe, houve progressos significativos na saúde infantil e na educação. As taxas de mortalidade caíram e o acesso à escola aumentou. Por exemplo, a pólio foi erradicada. Então, há uma série de boas notícias para se comemorar. Mas, quando se olha para a América, não se pode olhar para as médias, porque elas escondem disparidades. E elas ainda existem, principalmente em relação ao número de crianças que vivem abaixo da linha da pobreza, as comunidades indígenas, há problemas raciais. Temas como a violência vêm crescendo. Nessa parte do mundo, ao contrário da África, as coisas estão indo geralmente na direção certa, mas ainda não é o suficiente para resolver os problemas.
Como está o Brasil?
Carol O Brasil teve melhoras significativas em diversos setores, mas ainda mantém problemas. Aqui as crianças não morrem ao nascer, mas há uma taxa alta de mortes no primeiro mês. É inaceitavelmente alta. Então, o assunto não é apenas a mortalidade neonatal, mas o fato, por uma variedade de razões, de as crianças estarem morrendo muito, muito cedo. É um fato que a mortalidade materna também não foi resolvida. Então, ainda há muito trabalho para fazer.
O Movimento Global pretende engajar o setor privado no trabalho de melhoria da qualidade de vida das crianças. Qual o papel das empresas privadas nesse trabalho?
Carol O principal fato é que, naquele encontro, há dez anos, governantes fizeram promessas sobre ações que tomariam para melhorar a qualidade de vida das crianças. Muitas dessas promessas não foram cumpridas. Então, agora, além de engajar os governantes, queremos ampliar a ação. Deve haver um maior número de líderes, estejam eles nos governos, nas organizações não-governamentais ou no setor privado, participando. Não é nossa intenção tirar a responsabilidade dos governos, mas entender que há mais atores hoje que o governo.
Em relação ao Brasil, como a senhora avalia a participação das ONGs e do setor privado?
Carol Na última década houve uma melhora significativa para as crianças. Eu diria que a maior parte da responsabilidade disso vai para o governo, mas claramente as ONGs e o setor privado estão fazendo seu papel. Eu acredito que há um crescente reconhecimento de que o setor privado pode fazer ainda mais. E isso não é apenas sobre quanto dinheiro o setor privado põe. Está no interesse deles, por exemplo, que trabalhem com as escolas. Eles podem precisar de trabalhadores, consumidores, pessoas preparadas. Você não vai ter uma economia saudável a menos que tenha pessoas saudáveis, e elas precisam ser fisicamente e mentalmente saudáveis.

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